A visão da antropologia clássica sobre a liberdade


Para se entender a liberdade, primeiro necessita-se compreender a vontade. A vontade é o querer com a razão. Modernamente se confunde com desejo, mas não era essa a idéia dos clássicos. Quando se vai fazer um concurso, uma pessoa decide que precisa estudar. Esta é a vontade baseada na razão, que lhe diz que é necessário o estudo para ter sucesso no concurso.

A liberdade se apóia, sobretudo, no exercício da razão. É uma das marcas que define uma pessoa, define sua atuação. Só se é humano sendo verdadeiramente livre. Ela tem quatro planos:

Liberdade constitutiva

É a liberdade interior, a que existe no nível mais profundo do homem. É a que o faz ser dono de si mesmo, é interior a própria consciência. Nem um cativeiro pode suprimi-la: é a liberdade de sonhar, de desejar, de ter uma opinião, de imaginar. Para tirá-la é necessário destruir o homem. Filmes como "Sob o domínio do mal" e "Laranja Mecânica" mostram a tentativa de retirar esta liberdade e a principal conseqüência desta ação: a desumanização do homem.

Resta evidente o mal de uma sociedade totalitária. Ela não quer apenas aprisionar o homem, quer eliminar sua liberdade de pensamento, sua liberdade interior. Por isso é antinatural e violenta.

Liberdade de escolha

É o livre arbítrio. Refere-se a poder realizar uma escolha. É o contrário do que prega o determinismo, segundo o qual nossas escolhas são apenas aparentes pois uma série de fatores anteriores como a cultura e os valores impostos por uma sociedade já nos levam a uma decisão, ficamos apenas com a sensação de estar escolhendo.

O que existe, na verdade, é um conjunto de valores, que nos servem de base para nossas decisões. Estas podem ser certas ou erradas, porque podemos escolher bem, melhorando nossa condição, ou mal, nos enganando sobre o que nos convém.

Liberdade moral

Ao utilizamos nossa liberdade de escolha, se realizamos um ato bom, este ato reforça a possibilidade de repeti-lo, é a virtude. Se por outro lado, escolhermos um ato ruim, reforçamos nossos vícios.

A virtude é o fortalecimento da vontade, e permite ao homem aspirar a bens árduos e distantes. A liberdade moral é um ganho de liberdade que permite ao homem realizar coisas que antes não podia, é a realização da liberdade fundamental ao longo do tempo. É o delineamento da própria vida. Viver é a capacidade de criar projetos e realizá-los. A liberdade moral é viver a própria vida, completar a própria biografia.

As metas mais elevadas para um homem consistem em seus ideais, a liberdade moral se relaciona com a liberdade que o homem tem de realizar esses ideais.

Liberdade Social

É a liberdade da pessoa realizar seus ideais dentro da sociedade. Por exemplo, para se adquirir uma moradia é necessário que na sociedade haja moradias disponíveis, e que esta moradia tenha um preço que se possa pagar. Para ter liberdade social é necessário, em primeiro lugar, que exista um ambiente onde se encoraje o exercício da iniciativa na equação dos próprios ideais.

Dentro deste contexto, surge a miséria. É a situação em que o homem fica preso a um mecanicismo em que não consegue fugir e, principalmente, crescer. Vai além da pobreza e, por isso, não pode ser vencida pela esmola.

A miséria é a forma mais grave de ausência de liberdade, porque reflete na ausência de bens necessários para a realização da vida humana na sociedade. A conquista das liberdades acontece paralela à libertação da miséria, liberdade significa, antes de tudo, educação. Proporcionar meios para que a pessoa possa guiar sua própria vida.

É preciso dar ao homem liberdade para que realize o melhor de si mesmo.


 


(Novembro 2007)

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