Carnaval: nem contra, nem a favor, muito pelo contrário.

O carnaval está chegando ao fim. Olhando pela minha janela, já não vejo a agitação dos outros dias, ou o som de blocos e festas nas esquinas próximas. Só não digo que tudo voltou ao normal porque noto menos carros passando pela Avenida Princesa Isabel nesse horário das dez da noite. Uma terça feira de carnaval que parece um domingo. Sei que ainda há festas pela cidade, gente nas ruas e tudo, mas por aqui parece tudo um tanto calmo, antecipando a quarta-feira de cinzas. Talvez porque muitos já trabalhem amanhã, mas o fato é que já não é a mesma folia, ainda bem.

Não me levem a mal. Não estou dizendo que não gosto de carnaval ou a fazer manifestos contra  _ longe disso. Aliás, uma primeira reflexão. Parece que hoje há dois tipos de pessoas.: as que estão, ou estavam, pelas ruas na folia; e as que permaneceram em casa escrevendo textos nas redes sociais reclamando. Virou uma pregação contra o carnaval, em geral colocando a situação política em primeiro plano. Como podem estar fazendo festa com o país no meio da corrupção e início de crise econômica? Bem, lembro que conheço muita gente que não está exatamente bem de vida, com dinheiro sobrando, mas que não deixa de fazer churrascos, comemorar aniversários, fazer festas, muitas com custos até que me espantam. Mas, o mesmo tempo, acho que nem tudo é política. Se esperarmos até o Brasil resolver seus problemas para poder nos divertir, vamos nos tornar apenas um país triste, o que não significa que iremos melhorar nossa situação. Antes que me acusem de defender o pão e circo, apenas aponto que não se pode condicionar uma coisa à outra sem levantar alguns problemas. Afinal, porque só o carnaval? Por que não proibir o futebol, a praia do final de semana, o churrasco com os amigos, o cinema com a esposa, o show da Katy Perry? O fato é que parece que no Brasil de hoje todo mundo tem a obrigação de ter uma opinião sobre tudo. Ou se é a favor do carnaval ou se é contra. E haja textão no facebook!

Pois eu não sou nem a favor e nem contra carnaval. Primeiro porque o carnaval pode ser aproveitado de muitas maneiras diferentes. Há os que chutam o balde e se jogam na folia como uma espécie de orgia popular, onde não há limites para os próprios atos. O resultado são pessoas bêbadas às oito da manhã, como foi comum aqui perto de casa, pessoas dormindo em locais públicos (aliás achei curioso que os mendigos que habitam a praça aqui em frente desde o início do ano desapareceram  e foliões bêbados tomaram seus lugares. O que significa? Sei lá, apenas achei curioso. Com certeza algum sociólogo vai aparecer com uma teoria a respeito, geralmente com alguma explicação marxista para o fenômeno), e muitas pessoas impertinentes andando pela rua. Parece incrível para essas pessoas, mas nem todos estão na mesma sintonia que elas. Existem as que aproveitam o carnaval para colocar o trabalho em dia, ou para descansar, ou para qualquer outra coisa. Tem até um grupo numeroso que brinca o carnaval sem excessos, divertindo-se com familiares e amigos. Ou seja, dependendo de como se aproveita a período, o carnaval é uma experiência bem diferente para cada um e por isso não pode ser julgado em abstrato. Em segundo lugar, porque perdi o interesse pela festa faz tempo. Uma coisa que aprendi ao longo dos anos é não usar meu tempo para julgar algo que não me interessa. O carnaval para mim é apenas uma oportunidade de me dedicar a coisas pendentes. 

Passei quase todo o carnaval no lugar que mais gosto de ficar, a minha casa. Saí algumas vezes para ir ao mercado e fui duas vezes ao cinema, para me preparar para a festa do Oscar. Assisti o Birdman, por enquanto meu favorito, e Jogo de Imitação, um bom filme, mas que poderia tirar os penduricalhos. Por exemplo, a questão do feminismo ficou forçada no filme e não acrescentou nada à história. Se era para tratar do feminismo, fazia-se outro filme, com outra perspectiva. O homossexualismo era um ponto importante para a caracterização do personagem principal, mas no final só desviou da temática principal, o jogo de imitação entre máquinas e homens, e entre homens e Deus. Sobre Birdman, além de ser um excelente filme, que trata da persona, do papel social que desempenhamos uns para os outros e para nós mesmos, proporcionou-me uma experiência banal mas que me levou a reflexões. Logo no início da projeção houve um problema com a legenda e o filme teve que ser interrompido. Chamou-me a atenção a absurda impaciência do público até que o problema fosse sanado, o que não levou mais do que 5 minutos. Confesso que não tinha despertado para a questão da impaciência  do brasileiro. Mais ainda, que essa paciência se conjugava com uma tendência à procrastinação. Ou seja, somos um povo impaciente por resultados, mas que ao mesmo tempo adiamos ao máximo fazer a nossa parte. Talvez por isso elegemos tantos políticos com promessas populistas, de curto prazo, e vivemos constantemente com a crença que teremos um salvador da pátria para arrumar o país.

O resto do feriado passei em casa mesmo, com a família. Aproveitei para ler em dois dias o livro do Eric Voegelin sobre sua teoria sobre ciências políticas, na verdade um manifesto para uma retomada da teorética, dos princípios. Confesso que quase dei urros de alegria com seus ataques ao positivismo e sua influência destruidora _ usando suas palavras _ nas ciências políticas. Ficamos assim, eu vou de Voegelin e a academia brasileira continua com o Sr Bobbio e outros bobos, com o perdão do trocadilho. Terminei também de ler a segunda parte do Fausto. O século XX está todo descrito ali, do início ao fim, atém mesmo com o bebê de proveta. E sobretudo com o homem fáustico, o superhomem de Nietzsche, que tanto mal faria e ainda faz ao mundo. O Brasil, por exemplo, está descrito no Ato I do livro. Fausto resolve se afirmar na sociedade mais ampla do Império. Para isso é introduzido na corte como um mestre em finanças que tem um plano milagroso para salvar o reino da crise econômica que se encontrava: a emissão do papel moeda. Dessa maneira o Imperador poderia imprimir dinheiro para pagar as contas sem se preocupar com o amanhã, pois as pessoas em geral não teriam necessidade de trocar o dinheiro por seu lastro em ouro. Segue-se um grande baile de máscara na corte, onde todos celebram em uma ambiente de  despreocupada alegria e usando suas máscaras. Está descrita a corte brasileira atual com todas as suas cores. Apenas o antigo bobo da corte estranha aquela solução perfeita e chama atenção que alguma coisa não estava certa. O reino termina em uma inflação galopante que erode a popularidade do Imperador e divide o reino em duas facções, chegando à guerra civil. Espero que não cheguemos a esse ponto, mas o alerta está dado.

Aproveitei também para escutar jazz e um pouco de blues. Se não chego ao ponto de dizer que não gosto de carnaval, uma coisa eu realmente posso ser taxativo: não suporto música de carnaval. Vai desde samba até o axé passando por pagode; meus únicos momentos ruins foram as passagens de carros de som aqui por perto. Ainda bem que esses momentos foram breves. Respeito o direito que uma pessoa tem de escutar, e até de gostar, toda essa porcaria, mas não tem jeito para mim. Só não é pior que funk, rap e associados, mas essa é outra história. 

Resumindo, não é que não goste de carnaval; sou apenas indiferente. Existem alguns comportamentos, que eu mesmo já  tive no passado, que realmente são lamentáveis, mas de resto acho importante que um país tenha suas festas populares, mesmo que a situação política e econômica não sejam boas. Para meu gosto acho a festa junina muito mais pitoresca e interessante, até por ser centrada na família e na comunidade, do que a folia importada do carnaval. (Outro ponto interessante é que alguns xenófobos, apaixonados por verbas públicas para cultura nacional, reclamem tanto da influência da cultura estrangeira, que confundem com Estados Unidos, mas não se liguem que o carnaval foi também importado). Enfim, somos como todos os outros povos, um tanto peculiares. O meu ponto é que não precisamos ter opinião sobre tudo e criticar sempre sob um ponto de vista político. Estamos nos tornando um povo muito chato com essa mania de fazer texto contra ou a favor. Nem tudo na vida é manifesto.

Amanhã é quarta-feria de cinzas e tudo se dissipará novamente; a ilusão terminou. A corrupção do governo volta à ordem do dia, os políticos voltam a responder por qualquer ato que tenham praticado, mas o povo volta também ao batente, ao difícil dia a dia de quem não tem qualificação profissional para tentar algo melhor e passa vida mudando de um sub-emprego para outro. Não sei se o Brasil seria um país melhor sem carnaval, talvez fosse até pior. O fato é que ele existe e passa. Como tudo debaixo do sol.


Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2015

u© MARCOS JUNIOR 2013