causa e efeito

Uma dos erros mais comuns de cientistas sociais no mundo inteiro é concluir que o fato de dois fatos acontecerem em sucessão implicam que um decorre do outro, em outras palavras, que se trata de causa e efeito. Não é a regra. Esse pensamento é bem seletivo, acontece quando aparentemente comprova que estamos certos em alguma idéia. Daí a importância de um verdadeiro intelectual, que honra sua condição, buscar a prova que está errado ao invés de evidências de sua certeza. É uma posição muito mais crítica em relação às próprias idéias do que o contrário. Ao falhar em encontrar essas provas de que se está errado é que se começa a ter alguma certeza sobre nossas opiniões.

Um exemplo é a questão da liberação das drogas. Muitos acreditam que a liberação diminuiria a violência e a questão seria tratada como se fosse um vício, como o cigarro. Outros acreditam que iria além, que diminuiria o consumo.

Volta e meia aparece a notícia que algum país europeu, normalmente Portugal ou Holanda, teve o consumo diminuído com a liberação. Considerando que seja verdade essa diminuição, restaria ainda mostrar que uma coisa foi decorrente da outra. Que a liberação das drogas seria a causa da diminuicão do consumo.

O problema é que teríamos que partir da premissa que a facilidade em conseguir a droga inibiria de alguma forma o consumo. Não me parece razoável essa tese. Será que o maior motivo para se consumir drogas seria sua proibição? Acabaria a graça se fosse permitida? Por que uma pessoa arrisca-se ao cometer um crime deixaria de fazê-lo quando considerado legal? Posso até acreditar que existam algumas pessoas assim, mas seria a maioria, seria em número significativo?

A coisa fica ainda mais complicada quando penso no cigarro, seguramente a droga mais odiada pelo beautiful people. O crescente repúdio ao fumo, as campanhas na mídia, as leis cerceando os espaços para fumantes, etc, contribuiram para aumentar ou diminuir o consumo? Se caminhar em direção à proibição levou menos pessoas a fumar, por que caminhar em direção à liberação levaria menos pessoas a consumir cocaína? Para mim pelo menos não faz sentido algum!

Outra explicação possível é que a liberação de alguma forma permitira que a sociedade ajudasse em melhores condições os viciados. Mas em que a proibição prejudica a ajuda? Qual pessoa que reconhecer publicamente ser viciada em drogas e estar disposta a se livrar do vício teve ajuda impedida ou foi presa por causa disso? Qual família foi impedida pela lei de ajudar um ente que sofre pelo seu vício?

Não estou aqui dizendo que a liberação das drogas, ou aquele eufemismo de discriminalização, levaria certamente à explosão do consumo. Estou apenas afirmando que não me parece razoável que a facilidade no uso de drogas leve necessariamente à redução do consumo. E não vi nenhuma evidência nesse sentido.

E os números de Portugal? Deveriam ser vistos com todo cuidado e investigado, ainda mais se a pessoa estiver disposta a descobrir a verdade e não se sentir bem com suas próprias idéias. Principalmente se a pessoa tiver uma responsabilidade diante da sociedade, se for uma formadora de opinião. O melhor conselho ao se tratar do assunto me parece ser a prudência, justamente o que falto aos mais descolados, sempre rápidos em tirar suas conclusões e torná-la o mais pública possível.


Fevereiro, 2012

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