Como Iniciar uma Revolução

Gene Sharp acreditou que era possível derrubar uma ditadura usando exclusivamente métodos não violentos. Publicou um livro sobre isso, criou um instituto, e passou a vida com essa causa. Tinha duas premissas. A primeira era que os governantes nunca são tão fortes quando dizem ser. A segunda que o povo nunca é tão fraco quanto ele se imagina. Quando pensamos que toda ditadura sempre se esforçou para enganar a própria população, há uma lógica. Mesmo com o poder absoluto que tinha, Stalin investia pesado em falsos números e estatística para fazer a população russa acreditar que estavam vivendo melhor do que antes. 

O livro de Sharp, From Ditatorship to Democracy, reuniu 198 métodos não-violentos para derrubar um governo. O interessante é que tiranos do mundo inteiro perceberam que serve para qualquer tipo de governo, o que gerou manifestações públicas contra o autor, como de Hugo Chávez, e a proibição de seu livro em alguns países. O documentário Como Iniciar uma Revolução, disponível legendado na Globo News, mostra como essas idéias foram utilizadas com sucesso na Sérvia, Geórgia e outros. No caso da derrubada de Milosevic, o brasileiro vai se interessar particularmente pelo panelaço e as caminhadas pacíficas. 

Uma das lições do documentário é que um governo só pode ser derrubado se a oposição tiver uma liderança e planejamento estratégico. Na China de 1989 não tinha nada disso e o resultado foi uma catástrofe para os manifestantes, especialmente quando a mídia deixou de passar as imagens do que acontecia em Pequim. 

Sharp postulava que qualquer governo se apoiava em pilares. Pode ser o Exército, a polícia, a opinião pública, a mídia, o judiciário, o Congresso, não importa, sempre haverá um conjunto de pilares que lhe dá sustentação. O segredo era desequilibrar esses pilares, fazer com que parassem de dar sustentação ao governante. Não se trata de derrubar o pilar, ele vai existir na nova ordem, mas de tirar o apoio. Na Sérvia foi preciso convencer a polícia que eles não eram inimigos, mas igualmente vítimas da ditadura, que teriam seu lugar na sociedade livre. A polícia mudou de lado. Chegou-se ao momento que as ordens de Milosevic não eram mais obedecidas, seu governo tinha acabado.

Suas táticas foram usadas também na Tunísia e no Egito. Um dos líderes foi se encontrar com Sharp, que fez um alerta. Na sua opinião os dois movimentos tinham cometido um erro: exigir a renúncia do governante. Não se deve fazer isso. Sua autoridade deve apodrecer até o ponto dele cair por absoluta falta de condições políticas. Quando o ditador renuncia, ele mantém parte de seu poder, ele negocia suas condições. Os pilares não foram desequilibrados suficientemente, eles continuam prontos para sustentar outro governante da mesma espécie, como aconteceu no Egito. 

O documentário mostra que derrubar um governo por meios não violentos não é um trabalho fácil, leva tempo, exige muita paciência. Mas tem resultados muito mais concretos do que as revoluções violentas ou  as intervenções externas. Chega a gracejar como com o pequeno orçamento de seu instituto foi capaz de fazer mais estrago nas ditaduras do que o gigantesco orçamento militar americano.

Trazendo para o Brasil de hoje, que não tem uma ditadura mas um governo cada vez mais sem representatividade, eleito em condições desiguais de competição, como acontece hoje por toda América Latina, há muitas lições a tomar se Sharp tiver certo. Não adianta xingar eleitores do governo; eles serão necessários para derrubá-lo. Não adianta xingar o PMDB; também farão parte de um governo pós-PT. É preciso ser paciente, a coisa leva tempo. E, por fim, não adianta pedir a renúncia. O governo da senhora Rousseff tem que apodrecer até perder toda sua autoridade, não tem outro jeito. Basta lembrar que Getúlio Vargas, depois de 15 anos no poder, renunciou. Cinco anos depois voltou eleito. O PT precisa ser derrotado, no voto ou na lei, mas não pode negociar como vai sair. Os pilares que dão sustento a seu governo devem ser desequilibrados, o que já está acontecendo por um misto de incompetência do próprio governo e novos atores assumindo a liderança, ainda que dispersa, da oposição. Mas fica o alerta: é preciso planejamento estratégico. Movimentos descoordenados só conseguem chegar até certo ponto. Alguém tem que liderá-los, mesmo que das sombras. 

u© MARCOS JUNIOR 2013