Cruzada contra o pensamento?

A pesquisa científica, conforme estudada a partir de Descartes, começa com a identificação de um problema. O pesquisador intelectualmente honesto tem a vontade de descobrir a verdade sobre as coisas, entender o mundo como ele de fato é. A história do século XX foi marcada pela inversão deste pressuposto. Cada vez mais, intelectuais passaram a usar a pesquisa para encontrar elementos que provem sua tese. Parece a mesma coisa, não é. Quem estudou um pouco sobre a vida de Marx, comecem por Rumo a Estação Finlândia, sabe que ele deparou-se com informações que contrariavam sua teoria econômica; simplesmente ignorou-as. Mais do que isso, chegou a alterar dados encontrados em anuários ingleses sobre produção industrial. Era a submissão do intelectual à sua própria vaidade. Marx não poderia admitir, principalmente para si mesmo, que estava errado.

Como deve proceder então um pesquisador sério? Não pode afirmar nada a priori? O método científico prega que a primeira coisa que um pesquisador faz é identificar, dentro de uma área de estudo, um problema. Algo que a explicação não o satisfaz ou que não consegue encontrar uma resposta. Identificado o problema, deve formular a pergunta que quer responder.

Uma das coisas que me chamam a atenção no acompanhamento que faço do mundo moderno, é a falta de tempo do homem moderno. A tecnologia veio para tornar nossas atividades mais rápidas e mais fáceis. Teoricamente deveríamos ter uma sobra de tempo, um convite à ociosidade. Onde esta equação falhou? A primeira vista a resposta parece estar no fato de assumir-mos cada vez mais coisas para fazer, das inúmeras novas possibilidades que o progresso científico nos trouxe. Durante um bom tempo estive satisfeito com esta hipótese.

Até que comecei a perceber que o homem moderno tem cada vez menos tempo para pensar de verdade. Recebemos estímulos de todos os lados, tudo em direção da ação. Temos que fazer exercícios físicos diariamente, academia, encontrar com os amigos, escrever no orkut e outras redes sociais, participar de grupos diversos, terapia, yoga, etc. Não encontro um chamamento para pensar e refletir, tirando a religião; esta cada vez mais combatida. Será que o homem de hoje está sendo deliberadamente afastado do pensamento?

Tive este insight pensando na campanha anti-fumo. Existem uma grande variedade de vícios que fazem mal ao homem, tais como álcool, maconha, cocaína, ecstasy, etc. Por que os governos da Europa e América colocaram no fumo como inimigo número 1 da nova ordem civilizacional? Uma coisa que chamou-me atenção foi o fato do cigarro, no meio destes vícios todos, ser o único que não atrapalha a capacidade de pensamento. Pelo contrário, para muita gente é um estímulo à meditação. Quando estava no Haiti tinha um colega meu que várias vezes ao dia dirigia-se para um jardim e ficava alguns minutos fumando e pensando na vida. Volta e meia eu me juntava a ele e tínhamos conversas ótimas, muitos problemas ele solucionava ali, nestes momentos de reflexão. Mais ainda, filosofava. Na mais séria concepção da palavra. Estaria aí uma chave?

Comecei a identificar nas propagandas, nas leis, indícios que mostrassem que poderia estar havendo uma tentativa deliberada de afastar o homem do pensamento sério. O refrigerante também está começando a ser combatido. Lembro que costumava tomar guaraná para estudar à noite, uma espécie de pecado nos dias de hoje. O leite também tornou-se um vilão. O cafezinho...

Foi então que formulei a pergunta do título: existiria uma cruzada dos engenheiros sociais para desestimular no possível o pensamento humano? Definido um problema, formula-se uma hipótese, como ensina o método. A minha hipótese é que os governos ocidentais, estimulados ou dirigidos por planejadores sociais, em busca de uma ordem perfeita, está agindo deliberadamente para limitar a capacidade de pensamento do homem de hoje.

Paranóia? Pode ser. Mas é uma hipótese. Pode estar certa ou errada, só vou saber se estiver disposto a investigar buscando indícios que a comprovem ou que mostrem que é falsa. É o estágio que estou agora, buscando elementos na realidade e no meu testemunho do mundo que mostrem-me o meu erro.

Não tenho compromisso com a mentira, muito menos com a minha vaidade.

Este é apenas um exemplo das minhas dúvidas atuais. Outro dia fiz uma lista. Tentei escrever rapidamente meu estado de dúvida atual. Em cerca de 20 minutos levantei 50 perguntas. É coisa para mais de uma vida. Tive que selecionar algumas. Pelo menos levantei um roteiro de estudos.

É um começo.

Já sei que nada sei!


u© MARCOS JUNIOR 2013