Culto ao Corpo

Em todas as épocas a humanidade admirou uma certa forma de beleza no corpo humano. Os gregos exaltaram o corpo atlético masculino, na Idade Média as mulheres mais "generosas" despertavam poetas e assim por diante. No entanto, a humanidade nunca antes havia se convencido que era praticamente um dever buscar a forma ideal para o seu próprio corpo.

Com o advento da comunicação em massa, o homem foi submetido ao ideal de beleza como nunca antes. Este ideal está nos filmes, na apresentadora do jornal, no programa infantil, na música, nas propagandas de perfume, no culto a celebridades. Nunca a beleza __ beleza segundo os critérios de nossa época __ foi tão exaltada e, principalmente, divulgada.

O que antes era admirado na arte em suas variadas formas, mas visto como algo intangível, agora se tornou um objetivo, pois ao mesmo tempo o homem moderno foi convencido que tudo é possível se ele assim o quiser. Desta forma, ele entrou em uma insana busca pelo corpo perfeito. As academias de ginásticas vivem lotadas, vídeos são vendidos como água, assim como livros e remédios. A medicina foi convocada para salvar o homem de si mesmo pois, para piorar, o homem nunca teve acesso a tantos alimentos diferentes. O que antes era alimento de um nobre, hoje está no prato da maioria das pessoas. Em um mundo dominado por angústias de todo o tipo, a alimentação tornou-se um refúgio. A intemperança é uma das marcas da nossa sociedade. Gostamos das coisas em excesso.

A quantidade de conhecidos que escolheram se submeter a cirurgias de redução de estômago assusta-me. Recentemente tive notícias de um destes. Vive correndo para o banheiro para vomitar. A cirurgia pode ter reduzido o tamanho de seu estômago, mas não lhe deu a temperança.

É certo que o homem precisa cuidar da sua saúde. Engordar demais pode prejudicá-la, sobrecarregar o funcionamento do próprio corpo. Fazer ginática, alimentar-se com moderação, são coisas que realmente devem ser buscadas. Mas até que ponto? Passar horas todos os dias em uma academia? Ficar diante do espelho buscando músculos a mais e celulites a menos? O que está nos guiando? A busca da saúde ou a vaidade? Aquela é importante para nós, esta está na raiz dos pecados do homem, como já dizia Santo Agostinho.

O homem nunca foi tão vaidoso de sua condição. O que antes era privilégidos de poucos, hoje foi dissiminado pela massa. Somos vaidosos de nossos bens, de nosso corpo, de nossa beleza e até mesmo de nossos pecados. Sim, o pecado também tornou-se um motivo para vaidade. O que antes era visto com certa vergonha, hoje é propagado, exaltado. O homem ganhou o direito de ter orgulho de suas falhas.

Durante todas as épocas o homem teve seus modelos de beleza. A diferença é que hoje a vaidade o leva a crer que é seu dever buscar este modelo, tornar-se este modelo. Vale tudo. Dietas radicais, massacre de ginásticas, um bom bisturi. Talvez a imagem que melhor expresse esta obcessão seja a da personagem Bridget Jones. Depois de dois diários buscando o peso perfeito, enfim a neurótica inglesinha conseguiu. O peso ideal. Colocou uma roupa para ir em um jantar e mostrar com orgulho sua nova forma. Lá chegando foi surpreendida. Todos comentaram como ela estava pálida, como estava muito magra, estaria doente? Estaria deprimida? Precisava de ajuda? Um psicólogo? Bridget voltou para casa decepcionada. E tratou de comer. 

A vida é muito curta para buscar ideais de beleza como se fosse um dever moral. Não é. Pelo menos a beleza aparente. Esta sempre vem melhor quando se torna um reflexo de nossa própria alma. Algo que o homem parece ter esquecido.


u© MARCOS JUNIOR 2013