Despedida do Guga

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Agora foi oficial, Guga se despediu do tênis em Rolland Garros.

É engraçado das coisas que lembramos.

Em 1997 eu estava iniciando meu curso no Instituto Militar de Engenharia. O curso estava bem puxado, andava estudando muito; minhas aulas eram pela manhã, nem sabia que estava acontecendo o Aberto da França e muito menos que existia um Gustavo Kuerten.

Um dia li uma nota no jornal dizendo que havia vencido o número 5 do mundo, Tomas Muster. Nunca tinha ouvido falar. Não sei porque lembrei de uma vez que o Mattar tinha vencido Boris Becker na Davis. Um raio que caiu, não iria me iludir. Ainda mais que fiquei sabendo que o próximo adversário seria um especialista no saibro, Medvedev, que vinha de excelentes resultados.

Mas vale recordar a frase de Muster no meio do jogo, desesperado:

Como é possível isso? Estou jogando o meu melhor tênis e esse garoto está me matando! Quem é ele? Um gênio?




A partida contra Medvedev foi uma pedreira. Quando cheguei em casa, após a aula, fiquei sabendo que a partida havia sido interrompida por falta de luz, continuaria no dia seguinte. Estava 2 x2 em sets, 2 x1 para Guga no derradeiro. Não fui à aula no dia seguinte, fiquei para ver o jogo.

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Foi emocionante, Medvedev começou arrasador, fez logo 4 x 2 e tinha três breaks no saque de Guga. Estava sorrindo. Tudo parecia perdido mas não sei como o brasileiro virou o jogo e venceu por 7 x 5.

A próxima partida era contra Kafelnikov, número 3 do mundo e atual campeão. Mas a esta altura já dava para acreditar em tudo e resolvi que não iria à aula no dia do jogo. Queria ver até onde aquele garoto poderia chegar.

Cara, o russo joga muito! Ainda bem que eu também joguei!


O resto é história. Guga venceu Kafelnikovo em um jogo de elevadíssimo nível técnico, depois levou um susto mas venceu a semi contra o belga Dewulf na única partida em que era favorito. A final seria contra Bruguera, bi-campeão de Rolland Garros.

Por incrível que pareça eu perdi a final. Poucas coisas na minha vida me fariam perder este jogo, mas aconteceu uma daquelas. Era aniversário da minha irmã e minha ex-namorada estaria na cidade. Ainda estava naquele ponto em que não tinha superado o fim do relacionamento. Precisavam que fossem buscá-la do outro lado do Rio de Janeiro. Eu fui, me perdi uma vez, outra, e quando cheguei em casa o jogo tinha terminado e Gura era Campeão. Foi o jogo mais tranquilo do torneio, acabou rápido.

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De alguma forma a conquista de Guga ficou misturada com meus sentimentos e foi um sopro de alegria em uma época muito triste. Passei a acompanhar cada jogo do catarinense, torcer e vibrar com cada vitória. Foi uma forma de continuar a vida, tocar novos projetos. Na verdade o surgimento de Guga coincidiu com uma reviravolta profissional e emocional, ao mesmo tempo em que ele foi subindo eu fui me aprumando, conquistando meu espaço.

Vejo que haverá outros posts sobre esta "relação" com o manezinho da praia; era para ser só algumas linhas mas acabei de descobrir coisas que ainda não tinha pensado. Talvez Guga tenha representado o desejo de vencer, de dar a volta por cima, de perseguir novas metas.

O fato era que a vitória de Guga e Rolland Garros foi apenas a primeira alegria que tive. Nunca mais perderia outra final, minha agenda passou a se organizar pelas campanhas de Guga. O que o brasileiro sentia pelas vitórias do Senna aos domingos, e eu nunca havia sentido, eu senti pelas vitórias de Guga.

E isso foi só o começo.

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(Maio, 2008)

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