E foi-se um idiota




Morreu ontem o arquiteto Oscar Niemeyer, que Millor definiu um dia como metade gênio e metade idiota. Referia-se, é claro, ao Niemeyer arquiteto e ao Niemeyer comunista. Até o fim da vida manteve-se um fiel devoto desta pseudo religião funestra chamada comunismo, o que sempre lhe dispertou muita simpatia por nossa esquerda do miolo mole.


Eu discordo do Millor, e do Reinaldo Azevedo também. Acho que o arquiteto foi metade picareta e metade idiota. Não tenho elogio nenhum a fazer, acho sua arquitetura horrorosa, um exagero de concreto, assim como suas concepções urbanísticas e artísticas. Ao contrário de Reinaldo, não acho que tenha separado sua obra de suas convicões, pelo contrário, acho sua arquitetura plenamente enganjada e por isso mesmo, como sempre, ruim.


A minha primeira evidência é aquela coisa horrorosa da catedral de Brasília. Só na cabeça de um comunista um templo de adoração poderia ter aquele formato. Procurem pelo mundo uma igreja redonda, duvido que achem. Há razões para uma igreja católica ter determinada forma, com suas torres e cruzes apontadas para o alto. Se tivese um mínimo de interesse em conhecer o que é uma igreja compreenderia porque não poderia usar uma forma daquelas. Mas nunca achou necessário. É próprio dos ideólogos acharem que sabem tudo.


A segunda é a concepção urbanística de Brasília. Não me entendam mal, gosto imensamente de morar na capital, mas acho as escolhas de Niemeyer completamente equivocadas. Aqui aparece novamente a arte enganjada, pois na concepção de um comunista uma sociedade deve ser organizada como um formigueiro, cada um com sua fua função social; todos trabalhando para o bem comum. Até acredito que no céu cristão deve ser algo assim, principalmente quando se trata de anjos. Mas estamos falando de seres caídos, e que receberam do criador o maior dos dons, o livre arbítrio.


Sempre achei curioso que os comunistas, e humanistas em geral, deplorem tanto a liberdade de escolha do homem. Em qualquer regime implantado para conduzir uma humanidade a um futuro radioso, a primeira coisa que cai é justamente a liberdade do indivíduo. Ou melhor, ele pode decidir sim, desde que decida pela coisa certa. Um verdadeiro cristão, ou mesmo uma pessoa com um mínimo de sensibilidade, entende perfeitamente que a decisão pela coisa certa só tem valor quando era possível escolher a coisa errada. Um comunista não. Entende que o homem deve ser protegido de si mesmo, que deve ser impedido de escolher errado.


E foi com isso em mente, consciente ou não, que Niemeyer concebeu Brasília. Reclamam do trânsito atual, que Brasília não foi concebida para essa quantidade de carros. E não foi mesmo! Niemeyer concebeu uma cidade em que os deslocamentos de carros seriam mínimos. A grande maioria das coisas que precisamos todos os dias, da escova de dentes ao pão de cada dia, da escola para as crianças ao hospital público,foi tudo minunciosamente planejado para estar ao alcance da mão. Por que um homem iria em outra quadra comprar pão se tem uma padaria na sua? Por que iria se deslocar por 4 ou 5 quadras para levar o filho na escola se perto havia uma?


Jamais passaria pela cabeça de um velho comunista, que naquela época habitava um não tão jovem arquiteto, que uma padaria poderia ter um pão melhor do que o outro; que uma escola poderia ser melhor do que a outra; que o vigia de uma escola seria diferente do vigia de outra. Acontece que somos humanos e exisem padeiros melhores do que outros, professores melhores do que outros, médicos melhores do que outros. Somos humanos e por sermos humanos sempre teremos algo de caótico em nós. A realidade atrapalha a utopia, sempre.


Não estou aqui a comemorar a morte de Neimeyer, longe disso. Mas também não vou fingir uma admiração que nunca tive. Que ele tenha sorte ao explicar seus atos para um criador que nunca acreditou pois creio que vai precisar.


Muito.


Dezembro, 2012

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