Eric Voegelin e a Ideologia

Estou lendo Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin, filósofo austríaco, talvez o maior do século XX. Aqui no Brasil é quase totalmente desconhecido, e o seu pensamento sobre as ideologias mostram a razão.

Eric Voegelin não precisou ver as conseqüências das ideologias para entender o quanto são perniciosas. Ainda na década de 20 escreveu o mal que representava o nacional-socialismo alemão, o comunismo soviético e o positivismo.

Conta que em um jantar na casa de um colega, marxista, a esposa deste perguntou o motivo por qual tinha fugido da Áustria em 1938. Não era judeu, nem marxista, por que então tinha se oposto ao nacional-socialismo? É um ponto importante para Voegelin entender por que só poderia se opor ano nazismo se fosse judeu ou comunista, que a resistência à uma ideologia pudesse passar por razões não partidárias.

A primeira razão para sua crítica seria a questão da honestidade intelectual. Voegelin acreditava que não havia nenhuma razão para escolher as ciências sociais como área de atuação sem uma intenção honesta de examinar a realidade. As ideologias seriam edifícios intelectuais insustentáveis e só passíveis de crença através de estados de alienação. Sustentava que não era possível ser um ideólogo e um cientista social competente.

A segunda razão para seu ódio às ideologias era bastante primitiva, tinha repulsa ao que chamava de morticínio de seres humanos por diversão. Os ideólogos conquistavam uma pseudo-identidade com a afirmação do próprio poder, o que se fazia preferencialmente matando alguém, e esta pseudo-identidade “passa a servir de substituta ao ego humano que se perdeu”.

A terceira razão era a de um homem a quem agradava usar a linguagem claramente. “Se há algo característico das ideologias e dos ideólogos é a destruição da linguagem, ora no nível do jargão intelectual de alto grau de complexidade, ora no nível vulgar”. Cita que conheceu muitos homens que optaram por Hegel em relação a Marx apenas pelo primeiro pela “dificuldade sedutora dos seus escritos”. Um hegeliano passa a vida explorando as possibilidades de interpretação da realidade a partir de seus sistema, mas não aceita tocar em suas premissas, que estão erradas.

A questão é que se as premissas estão erradas, tudo o que delas se segue também está errado, e é por isso que um bom ideólogo precisa impedir que sejam discutidas. No caso de Hegel isso é relativamente fácil, porque ele era um pensador de primeira classe e conhecia muito bem a história da filosofia. Então, para atacar as premissas de Hegel, é preciso conhecer seus antecedentes em Plotino e no misticismo neoplatônico do século XVII.


No caso do marxismo, a falsidade das premissas seriam ainda mais evidente. A origem estaria na distorção deliberada de Marx sobre Hegel ao transformar os predicados da idéia deste último em enunciados sobre fatos.

Com este meu jeito selvagem de homem que não gosta de matar pessoas para divertir a intelectualidade, afirmo categoricamente que Marx era um charlatão intelectual deliberado. Com isso pretendia sustentar uma ideologia que lhe permitisse apoiar a violência contra seres humanos afetando indignação moral (...) O charlatanismo marxista reside na terminante recusa em dialogar com o argumento etiológico de Aristóteles, isto é, com o problema de que a existência humana não provém dele mesmo, mas do plano divino da realidade.


Voegelin condenava a degradação cultural do universo acadêmico e intelectual, o que seria comprovado pela ignorância dos estudiosos do hegelianismo e do marxismo em Aristóteles e Plotino.

Eis o principal motivo para o meu ódio das ideologias: elas vulgarizam as discussões intelectuais e conferem ao debate público uma coloração nitidamente oclocrática, tanto que hoje se chega ao ponto de considerar fascista ou autoritária uma simples referência a fatos da história política ou intelectual cujo conhecimento é absolutamente necessário para discutir os problemas que surgem no debate político.


Foi desta forma que Voegelin estruturou seu estudo e sua crítica às ideologias, isto em uma época em que praticamente todos estavam fascinados por elas. Afirmava que a reflexão filosófica profunda era necessária para retomar as camadas da relidade que haviam se perdido pela influência da alienação característica dos pensadores ideológico


Abril, 2008

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