Idade Média que liberta

O lugar comum de hoje é que a Idade Média foi o período das trevas, onde o rico pensamento antigo foi sepultado por padres fanáticos que escondiam o conhecimento nos mosteiros e queimavam os livros pois apenas pela ignorância poderiam  fazer com que as pessoas obedecessem à Igreja. Essa imagem ficou consolidada em livros como O Nome da Rosa, em que a teologia é colocada como uma oposição à ciência e à razão.

No ensaio “O que há de novo na Idade Média?”, traduzido para a Edição 8 da Dicta, o filósofo medievalista Olivier Boulnois coloca toda essa problemática em discussão e clama pela urgência de um estudo sério sobre a filosofia medieval. Para ele, o período é o aspecto essencial da identidade moderna e um imenso continente submerso, inexplorado.

Diante da caracterização da modernidade como o retorno à uma antiguidade luminosa, que havia sido sepultada pela Idade Média, Boulnois coloca a época medieval como um longo período de renascimentos, culminando com a renascença do século XVI, o resultado de mil anos de cultura, a realização do projeto medieval. O que hoje considera-se com essências da modernidade, já estavam presentes e se consolidaram na cultura medieval.

O humanismo já estava presente na escolástica.  A novidade foi retirá-la de um triângulo que formava um dos vértices com a teologia e a lógica, como se fosse possível separar o homem da razão e da ligação com a transcendência.  A dignidade do homem já era um conceito antigo para os gregos e foi retomado pela patrística e tornou-se central na Idade Média e pode ser resumido na tese do homem como imagem e semelhança de Deus. Finalmente, o protestantismo, se opõe à harmonia que existia entre o conhecimento natural de Deus e a fé. Lutero simplesmente rompeu com essa harmonia e estabeleceu a primazia do elemento teológico sobre o filosófico.

O que hoje consideramos como modernidade, já eram conceitos centrais na Idade Média. A secularização já tinha sido posta com a separação do poder temporal do poder espiritual, da cidade de Deus e da cidade dos homens. A curiosidade e desejo de saber já era presente em qualquer teólogo do período, o que se condenava era a curiosidade vã, a ciência buscada por si mesma. A concepção do progresso já tinha sido afirmada por um padre medieval, Bernado de Chartres, e não por Newton como se diz por aí, na cérebre frase “somos anões apoiados sobre os ombros de gigantes”. Aliás, Newton tinha o hábito muito pouco científico de não citar suas fontes…

Se houve um período das trevas, de ruptura com um passado luminoso, com a tradição, esse foi a modernidade dos séculos XVII a XIX, que colocaram as bases para a destruição do século XX. Boulnois deixa claro que na confusão mental da filosofia contemporânea o homem resta perdido e apenas pelo resgate da Idade Medieval poderá se libertar das amarras dos pensamentos cíclicos e contraditórios que caracterizam o mundo de hoje. A Idade Média liberta.

Julho, 2013

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