Mortes no carnaval e o problema da análise


Está no noticiário: explode o número de mortes no carnaval. Foram 211 mortes contra uma média de 130 dos últimos 10 anos, uma tragédia.

Particularmente acho os 130 de média a maior tragédia, ou em outros termos, a quantidade de gente que morre nas estradas todo ano o verdadeiro problema. Sim, são números assustadores. As causas? Impunidade, condições das estradas, falta de educação no trânsito, cultura dos motoristas, etc. Qual a mais decisiva? Ninguém sabe, todo mundo chuta.

Mas não é bem do problema em si que vou tratar aqui, mas de um fenômeno mais amplo e complexo. Trata-se da forma como vemos os problemas e como lidamos com números.

O que chamou atenção foi o número extremamente alto deste ano, tanto que as manchetes se referem a explosão. A impressão que dá, é que estávamos em uma situação de tranquilidade e de uma hora para outra veio uma grande calamidade. Se ano que vem o número cair novamente para 130, como imagino que vai acontecer, não vai haver nem notícia. Pior, o número vai ser utilizado como evidência de sucesso por polícia rodoviária, poder público, etc. Como se os 130 já não fossem, por si só, escandaloso!

É o mesmo fenômeno que acontece com a violência. O governo do Rio festejou uma diminuição do número de assassinatos como se esse número não fosse encandalosamente alto. Sim, deve-se comemorar uma melhora dos números, mas sem perder de foco o quadro inteiro. O número de acidentes de carro, por exemplo, é muito alto no Brasil. No Brasil, morrem 50 mil pessoas assassinadas por ano, uma verdadeira guerra. A postura deveria ser, ok, melhoramos um pouco mas ainda temos muito o que fazer. É o que não acontece.

Outro ponto interessante, ainda sobre as mortes no carnaval, foi uma reportagem do jornal nacional que colocou entre as causas do aumento o fato do carnaval ser no início do mês e o pessoal estar com mais dinheiro no bolso. Isso se chama marxismo vulgar da pior espécie. O dinheiro está sempre na origem de todos os problemas humanos. A reportagem nem se deu o trabalho de olhar os números na escala do tempo e verificar que nos últimos 10 anos, a menor quantidade de acidentes se deu justamente em 2003, quando o carnaval foi também no início de março. 102 acidentes para ser mais exato.

O que não vi até agora foi alguém tratar de uma das possíveis causas para o aumento de mortes esse ano. Quando penso no carnaval de 2011, uma das imagens que ficaram na minha cabeça, foi que choveu uma barbaridade! Foi chuva em tudo quanto é lado, até em Brasília! Não sei se a chuva foi determinante, mas é razoável supor que com pista molhada e sem visibilidade o número de acidentes aumentem. Acho que é um fator que deveria, pelo menos, ser levantado como uma das possíveis causas da "explosão" de mortes. Combine motoristas imprudentes, muitos bêbados, estradas horríveis e muita água. É ou não é a receita para o desastre?

Ainda mais, a tal lei seca, em vigor há uns três anos, não conseguiu mudar esse quadro. Em alguns aspectos os números até pioraram. Parece que ela é mais eficiente para encher o saco de motoristas que bebem pouco do que esse bando de embriagado que dirige pelas ruas e estradas do país. Uma lei que perturba mais pessoas de bem do que irresponsáveis deve ter algum problema.

O número de mortes no carnaval e a forma como se trata o problema na discussão pública mostra que temos muito o que evoluir em termos de análise de dados, observação do quadro em amplitude correta e levantamento de hipóteses, em resumo, no trato da realidade. Isso vale para carnaval, violência, economia, cultura, e tudo mais. Só com uma busca sincera pela verdade poderemos evoluir e resolver nossos problemas. A questão, como digo sempre, é que queremos mostrar que estamos certos e não descobrir o que está de fato acontecendo.


Março, 2011

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