Pobre São Paulo



Mais uma vez estou em São Paulo. A diferença é que dessa vez estou hospedado na casa de amigos, no centro antigo da cidade. O que me fez ver muitas coisas que antes não tinha reparado.

Primeiro a grande quantidade de moradores de rua espalhados pelo centro; a grande maioria usando crack ou coisas do gênero. Me disseram que foi efeito da desativação da cracolândia, que concentrava essas pessoas em um lugar só. Se foi mesmo, acho que já estava mais que na hora. Esconder o problema é o primeiro passo para não resolvê-lo. Agora pelo menos está bem nítido que a maior cidade do Brasil, nossa capital econômica, tem problemas seríssimos. Sim, isso já se sabia; mas é diferente quando se vê.

Não sei como resolver um problema dessa natureza, apenas intuo que não deve ser de simples solução. Aliás, um dos grandes problemas talvez sejam as pessoas que acham que basta a tal "vontade política" e a aplicação de alguma solução mágica, normalmente isolada de outras possíveis, para resolver o problema. Começam os mantras da políticas sociais, tolerância zero, assistência, etc. Acho até que todas elas podem ajudar na resolução do problema, mas os partidários de uma solução costumam colocar a outra como oposta quando poderiam ser muito bem complementares. Leibnitz dizia sabiamente que as pessoas normalmente estão certas no que acreditam, o grande problema é a rapidez de negar as alternativas sem ter o cuidado de verificar se são compatíveis.

Talvez a melhor solução seja dar a essas pessoas, que hoje estão jogadas pelas ruas, uma opção melhor do que possuem hoje. Isso é diferente de dar dinheiro, cobertores, ou outros bens materiais que no fim só servem para sustentar o vício ou aumentar o conforto na miséria. Será que nossos planejadores não conseguem imaginar alguma maneira de criar opções reais para que essas pessoas saiam das ruas? Acho até que alguma tentativa está sendo feita nesse sentido, vejo que pessoas estão trabalhando como auxiliares de semáforo. Sim, verdade! Na hora que o sinal fecha, duas pessoas em cada lado da pista estendem uma bandeira pedindo que os motoristas respeitem os pedestres. Trata-se obviamente de uma tentativa de gerar empregos, mas será que é eficiente criar empregos inúteis para justificar um salário? Não teria algo mais de realmente produtivo que essas pessoas pudessem fazer?

Outro problema, e associado à miséria espalhada pelo centro é a inacreditável sujeira do centro de São Paulo. Por que digo associado? Porque não vejo como enfrentar um problema sem enfrentar o outro. Não sei quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, mas a pobreza gera sujeira e a sujeira gera pobreza. Não é possível que uma cidade que gera a riqueza que São Paulo gera não consiga pelo menos encaminhar a resolução desses problemas.

Não vou entrar na questão política de PSDB e PT, que fizeram da capital um grande ringue político, talvez o lugar onde a disputa entre os dois seja mais feroz. Independente do partido no poder, e na oposição, algum pacto em torno de uma direção tem que haver e só quem pode exigir isso é o próprio habitante de São Paulo. Mais do que um partido, e um governo, acho que a solução tem que partir de toda a sociedade paulistana, de uma tomada de consciência do problema e de sua gravidade, do desenvolvimento de um real sentido de comunidade, do estabelecimento de uma ligação real e efetiva entre seus habitantes. O que vejo hoje é uma cidade cheia de indivíduos, cada um cuidando de seu problema. Não é o suficiente. É preciso pelo menos estender a mão para a pessoa que está do lado, nem precisa ir longe.

Mas isso tem nome não é?

Um nome com cada vez menos espaço nesse estranho mundo moderno.


Abril, 2012

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