Politicamente Correto

Um dos melhores blocos do programa de ontem no Manhattan Connection foi a discussão sobre o politicamente correto, principalmente nas intervenções de Diogo Mainardi e Márcia Tiburi.

Mainardi argumentou contra lembrando que toda forma de coibir a expressão é uma forma de coibir o pensamento e as idéias. O lugar-comum é uma das formas de impedir o debate à medida que certas coisas são tidas como verdades inquestionáveis.

Márcia colocou-se como um contraponto defendendo que o próprio pensamento de Mainardi poderia ser considerado politicamente incorreto e também funcionava, mesmo que em polo oposto, como uma limitação da linguagem.

Duas questão relevantes tomaram o espaço do debate.

A primeira era a existência de pensamentos pré-estabelecidos. O lugar comum, o politicamente correto, leva aos estabelecimento de uma forma definida de pensamento em que o indivíduo se "encaixa" em uma destas formas.

Ortega Y Gasset abordou muito bem esta tema. O homem contemporâneo é incapaz de pensar, mas possui mais idéias do que em qualquer época da humanidade. Na verdade escolhe as que mais lhe agradam e passa a defendê-las. Um exemplo citado por Mainardi é a frase "é necessário distribuir renda". É um pensamento que se coloca como uma verdade e não pode ser discutido. Defender qualquer outro ponto de vista é ser contra a humanidade. 

O politicamente correto surgiu em uma determinada época histórica como instrumento de defesa e de afirmação de minorias. Parece-me que hoje foi-se para outro extremo. Hoje se exige de uma pessoa que se posicione dentro da minoria que pertence. Se é negro, é preciso que afirme sempre que é negro, e assim por diante. Será que ser negro, índio, homossexual, ou outro grupo qualquer, tornou-se mais importante do que ser humano?

No Brasil a coisa é ainda mais complicada. Tornou-se impossível, por exemplo, qualquer discussão sobre as cotas raciais nas universidades. Ser contra é confundido como ser contra os negros.

Lembraram que o uso de certas expressões assumiram caráter pejorativo que ofendem as pessoas, por isso a necessidade do politicamente correto. Aí surgiu um dos melhores argumentos da noite. Há tempos atrás, a palavra "judeu" tinha um sentimento pejorativo e de ódio brutais. Sem o politicamente correto, através dos próprios méritos, os judeus viraram este jogo e a palavra hoje pode ser usada sem qualquer sem se constituir forma de ofensa. Não seria este o caminho para os negros? Ou homossexuais?

Em um segundo ponto, discutiu-se, sem chegar à resposta, se o que é falado pelos formadores de opinião é levado ou não em conta pela população em geral. Márcia diz que sim, que eles devem ter sempre em mente que a opinião expressado em programas como estes formam a cabeça da população. Marnardi e Amorim refutam que não, as pessoas já possuem suas opiniões e apenas filtram o que está de acordo e descartam o que seria contra; e mais, muitas vezes distorcem o que foi dito para caber dentro de suas próprias idéias.

Tudo desagua em um ponto importante: a capacidade de formar idéias próprias. Não estaríamos hoje cada vez mais sem capacidade de pensar? A cultura do consumismo não teria chegado às idéias? Para quer formular um pensamento se já temos a nossa disposição vários prontos?

Cada vez mais me convenço de uma coisa: a verdadeira liberdade está no pensamento. O homem que consegue pensar, refletir, analisar, decidir, é mais livre que um que só repete idéias pré-estabelecidas.

Uma das melhores frases do programa foi dita por Ricardo Amorim, é preciso que se tenha liberdade para questionar tudo. Colocar os argumentos e contra-argumentos, confrontá-los, e então chegar à conclusões.

Não há nada de novo aí, é o pensamento que Aristóteles deixou escrito, mais atual do que nunca, é a verdadeira dialética. A busca da verdade partido de argumentos em oposição. Daí a importância da liberdade de manifestação, de escutarmos idéias opostas às nossas.

Um bom ponto para se refletir longamente.


Março, 2008

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