Reflexões sobre a carta

A modernidade praticamente acabou com um dos principais instrumentos de comunicação do homem em todos os tempos, a carta. Tão importante que muitas teses filosóficas e científicas foram escritas desta forma, na troca de correspondência entre pensadores. Verdadeiras auto-biografias de homens como Newton, Tostói, Marx, Voltare, Leibniz, sem falar das cartas de São Paulo, ficaram registradas para sempre através de suas correspondências. Com o advento da internet, a carta foi relegada ao ostracismo.

Vejam bem, dificilmente coloco a culpa de alguma coisa na internet precisamente porque a rede não é nada mais do que um poderoso instrumento colocado nas mãos dos homens e como instrumento não pratica juízo de valor. Quem decide o uso que fará dela, bom ou ruim, é o homem, este ser imperfeito, capaz de obras maravilhosas e ao mesmo tempo dos maiores horrores. Como instrumento, a internet é capaz de propagar o bem e o mal na humanidade, depende do uso que se faz dela.

Teoricamente a carta foi substituída pelo e-mail, com vantagens. Não se precisa mais esperar dias ou semanas por uma resposta, agora é tudo praticamente instantâneo. Na prática, esta substituição nunca ocorreu. O homem moderno nunca dispensou o mesmo tempo ao e-mail que dispensava à carta. Até porque o surgimento de outros instrumentos como o chat, as redes sociais e o barateamento da ligação telefônica tornaram muito mais fácil a interação entre pessoas distantes. Por que então perder um tempo cada vez mais precioso para escrever em uma folha de papel?

O problema, a meu ver, é que a carta era um indispensável exercício de reflexão, uma terapia. Sentar em uma mesa, colocar uma música, por vezes acender uma vela e colocar a cabeça para pensar com a finalidade de escrever uma boa carta era uma experiência que o indivíduo tinha consigo mesmo, uma abertura para seu próprio espírito. Ao escrever uma carta, o homem revelava uma parte de seu ser não só para o correspondente, mas para si mesmo, o que constituía o próprio ato de filosofar, o "conhecer a si mesmo" socrático.

A própria forma de ver o mundo era diferente. Ao deparar-se com uma cena interessante, a pessoa já tentava extrair o máximo de detalhes e reflexões para colocar em sua próxima carta para o amigo confidente ou ao amor ausente. Hoje, bate-se a foto com o celular, coloca logo em uma rede social e adiciona-se, quando muito, um comentário. Pode ser um "k k k" ou "rs rs rs" ou algo mais elaborado "legal, né?". Será que não estamos perdendo alguma coisa importante em tudo isso?

A carta, ou seu fim, talvez seja apenas mais uma exemplo de como o uso da tecnologia sem reflexão pode empobrecer o homem e a longo prazo causar mal a si mesmo. Estaremos em um mundo onde a quantidade está cada vez mais superando a qualidade? Sim, através do e-mail posso me comunicar com muito mais pessoas em menos tempo, mas qual a qualidade desta comunicação? Qual a qualidade da amizade? Recebo diariamente muitos e-mails de amigos, a grande maioria, seguramente mais de 90%, são de piadas, correntes, vídeos engraçados e coisas do gênero. Fico feliz quando o amigo ao menos se dá o trabalho de comentar o que enviou, pelo menos fico sabendo de algo seu; na maioria das vezes é só um repasse quase automático de algo que recebeu.

Não sei se chegaremos no dia que o papel e a caneta serão totalmente dispensados e figurarão como relíquias em um museu, pode ser, mas me pergunto se o abandona das cartas em favor de meios de comunicação onde prevalece a rapidez não se acompanha de um empobrecimento da linguagem, o que leva inevitavelmente ao empobrecimento do pensamento.

Um alento foi o surgimento do blog, uma forma de comunicação que permite uma abertura maior para nossos pensamentos. Para quem se dedica a um, pode ser um excelente exercício para se conhecer um pouco mais e usar a linguagem para compreender a realidade. Infelizmente a grande maioria que começa um blog desiste depois de um mês, poucos passam de um ano. Descobrem que exige muito mais tempo do que, por exemplo, o orkut. Além do fato de estar escrevendo para qualquer um, o que inibem, e com razão, algumas linhas de pensamento e reflexões.

Este post que escrevi é praticamente uma carta que poderia estar mandando para um amigo, o que mostra que o blog pode, em determinadas ocasiões, substitui-la, mas nem sempre. Acho que depois de tudo que escrevi, tenho a obrigação de largar um pouco o computador e escrever uma carta! E você, não quer tentar?


Agosto, 2009

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