Era das Opiniões

Existem épocas em que sinto uma necessidade enorme de parar e organizar o pensamento. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que sinto uma necessidade de refletir sobre esta coisa extraordinária que é a natureza humana. Normalmente percebo isso quando tenho sempre uma opinião sobre tudo na ponta da língua; nesta hora um aviso vermelho de alerta acende em meu labirinto mental: alguma coisa está errada.

Não pretendo ter respostas sobre tudo que acontece na humanidade, não anseio em ter opiniões sobre a complexidade de nossa história sobre a Terra e não acredito que alguém tenha esta capacidade, por melhor que seja. Desconfio sempre das pessoas que parecem saber de tudo, uma espécie de enciclopédia ambulante. Taxa de juros, democracia, aborto, educação, pena de morte, dieta alimentar, ecologia, consumismo, exercícios físicos, história, política, drogas, família, etc. Se você tem uma opinião formada sobre cada um destes temas, desconfie. Há alguma coisa de errada sobre você.

Pensar com clareza envolve um lento processo de juntar informações, entender o problema, compreender os argumentos existente e por fim chegar a uma conclusão pessoal. Não se faz isso da noite para o dia, nem temos tempo para isso. Quem tem um pensamento sobre tudo na verdade não tem pensamento sobre nada; apenas repete pensamentos que não são seus. É muito mais fácil escolher algumas referências e decorar a pregação que recebe como um ato de fé. Se você tem menos de 40 anos a coisa é ainda pior; não tem nem a experiência ao seu lado.

Pegue um assunto qualquer, por exemplo a descriminalização das drogas. Como formar um pensamento racional, próprio sobre o assunto? Primeiro temos que ter acesso a uma enormidade de informações tais como custos para a sociedade, motivação para o consumo, motivação para o tráfico, eficiência das diversas políticas públicas, exemplos de experiências sobre descriminalização, etc. Só então podemos começar a entender o problema e conseguir formular nossas perguntas tais como: o consumo aumentará? os traficantes deixarão o crime? a violência vai diminuir? o viciado será melhor assistido? o viciado é uma vítima ou uma das causas? qual a responsabilidade individual do consumidor? Temos que escutar com atenção os argumentos já existentes sobre o assunto, entender o estágio em que se encontra o debate. Por fim, utilizamos a razão, nossos conhecimentos nas mais diversas áreas, para conseguir chegar a nossas próprias opiniões. Observa-se que quanto mais se entender das diversas áreas do conhecimento, melhores condições teremos para refletir sobre as respostas que procuramos. Não existe muita mágica, precisamos suar um bocado para construir nossas idéias sobre um assunto.

Quanto tempo seria necessário para passar por um processo destes? Difícil dizer, mas provavelmente levaria mais do que um dia, ou uma semana, ou mesmo um mês. Isso com dedicação integral, mas temos que ganhar nossa vida, interagir com as pessoas a nossa volta, descansar, etc. Quanto tempo sobra em um dia para se dedicar a uma questão objetiva? E se tivermos pensando em várias coisas ao mesmo tempo?

Talvez devêssemos ser um pouco mais humildes antes de sairmos pregando tudo que escutamos como se fossem verdades evidentes ou fatos. Quantos conseguem dizer na hora de uma discussão, com sinceridade, que está apenas dando uma opinião, sem qualquer base que a apóie? Que muitas vezes está confundindo o que deveria ser com o que realmente é. Que pode estar completamente errado em suas suposições?

Por isso tudo, é preciso ter calma antes de chegar a conclusões. Uma boa dose de ceticismo é importante para quem quer raciocinar com clareza e formar um pensamento próprio. Escolher alguns modelos e segui-los é um caminho fácil, difícil é se perguntar: e se ele estiver errado? E se este pensamento em que acredito for uma fraude? Temos a humildade suficiente para reconhecer um erro ou pelo menos compreender que podemos estar sendo enganados?

Quando começo a ter opinião sobre tudo, a dar respostas para qualquer questionamento é sinal de que estou com um problema pois ninguém pode ter a resposta para tudo. Hora de parar, tomar uma boa dose de humildade e começar a questionar. Quem tem respostas antes de se fazer as perguntas é um mero repetidor, provavelmente de um grande número de bobagens.

Quem escreve textos públicos, principalmente em blogs e redes sociais, deve rever o que andou escrevendo. Quantos questionamentos existem nos textos? Quantos pontos de interrogação? Se não vir nenhum sinal deles é porque existe uma grande chance de ter se deixado dominar pela própria vaidade e considerar-se em alguma missão de iluminar a humanidade. Não seria este um caminho para a ignorância? Para o preconceito? Para o obscurantismo?

Afinal, o que desejemos em matéria de sabedoria? Estar certos ou entender a realidade? Queremos ilusão ou verdade? O que desejamos para nós?

São perguntas que deve estar no princípio de cada pensamento que desejamos formular. Pelo menos na opinião deste ignorante que volta e meia julga saber mais do que de fato sabe…


Outubro, 2009

u© MARCOS JUNIOR 2013