Sobre Deus

Acabei esquecendo de comentar o excelente artigo de Stephen Kanitz na Veja da semana passada. Desta vez o tema não foi economia, bem longe disso. O assunto foi a religião.

Ele tocou em um ponto muito importante que corresponde ao meus pensamento já de algum tempo; a religião não pode ser colocado de forma estanque na individualidade, não pode ser separada do que somos.

Por religião eu entendo algo muito mais amplo do que uma determinada igreja. Entendo como tudo que relaciona o homem com algo maior do que ele, transcendental, que lhe é superior e além do alcance deste mundo. Chamem de Deus, Deusa, Deuses, não importa, o que importa é o homem ter uma referência perfeita e fora deste mundo.

Aceitar uma religião é se convencer de uma determinada explicação para o mundo, uma forma de ver as coisas. Acreditar que a vida continua após a morte, ou não, e de uma importância fundamental para se definir como ser e fazer seus planos de vida.

Quem crê que a vida termina na morte, como um apagar de luzes, possuiu uma urgência de aproveitar cada minuto pois não sabe se será o último. Quem acredita na vida eterna, que ela continue após a morte, tem outra atitude, percebe que tem que viver seus dias pensando no que virá depois.

Este é um ponto que definirá a atitude diante do mundo em que vivemos, das relações entre as pessoas, da construção de seu próprio núcleo familiar.

Fico preocupado quando me chamam para uma discussão em que tenho que colocar Deus de lado. Não entendem que isto é impossível pois meu entendimento do cosmos está ligado ao meu relacionamento com a divindade. Não tenho como pensar sem levar em conta minha fé pois é ela que me explica a realidade.

Cada vez mais vejo o homem distante de Deus, ou Deuses, ou qualquer entidade transcendental que tenhamos como modelo da perfeição. Existe uma tendência para relacionar religiosidade com obscurantismo; certos estão os homens da ciência, em boa parte ateus.

Não entendem que ao colocar sua fé no progresso científico estão adotando uma religião? Estão mostrando a mesma fé que tanto criticam nos religiosos. A ciência possui limites, não consegue explicar tudo. Assim como também a razão. Acreditar que as respostas estão todas em tubos de ensaio é assumir uma fé, por mais que não se dêem conta disso.

Nos últimos séculos a humanidade tem procurado encontrar na razão e na ciência uma explicação para o cosmos, para Deus e para definir os princípios morais. O resultado até agora tem sido um fracasso. Qualquer sistema moral baseado na razão levou a inconsistências insuperáveis. O ateísmo embebido no cientificismo leva a uma falsa moral, ao relativismo de padrões, ao niilismo. 

Não é a partir da razão que se explica a divindade, é o contrário. Através da divindade chegamos à razão. Mais do que certezas, passamos a ter dúvidas pois vamos descobrindo aos poucos a extensão da nossa ignorância. Com dizia Sócrates, o maior sábio é aquele que entende que nada sabe.

Somos incapazes de explicar as coisas mais simples da vida, mas queremos explicar o mundo inteiro. Como isso pode estar certo? Como podemos ter tamanha pretensão?


Maio, 2008

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