Sobre Investimento em Esportes


Sempre que se fala em Olimpíadas surge o consenso que o Brasil precisa investir mais em esportes, que ganhamos poucas medalhas, que Cuba com uma população bem inferior ganha mais medalhas que a gente, etc. Aliás o país caribenho é uma espécie de modelo para muitos, o exemplo de como um governo deve investir no esporte.

Para começo de conversa temos que definir bem que esporte estamos falando. No Brasil se pratica muito esporte, basta ver a quantidade de campinhos de futebol que existe pelo país a fora. Já andei por tudo quanto é canto, mas não vi ainda um vila ou mesmo uma aldeia indígena que não tenha o seu. Se o assunto são as modalidades olímpicas, aí a questão muda de figura.

Grande parte das modalidades olímpicas exigem uma razoável infra-estrutura e recursos para serem praticas. Ciclismo, vela, natação, hipismo, ginástica e outras. A primeira coisa que se precisa definir é o modelo de investimento. Sempre que se fala que o Brasil precisa investir, está implícito quem fará o investimento: o governo. Por governo entenda o nosso dinheiro.

Uma das leis básicas da economia diz que os recursos são escassos e as necessidades são infinitas, o que significa que sempre que se utiliza recursos está se fazendo uma escolha. Cada real que o governo coloca em esportes está deixando de colocar em outro lugar. Como o dinheiro é nosso, deveríamos nos fazer uma pergunta singela: esta é a melhor aplicação para este dinheiro?

Somos um país carente de estradas, esgoto, água tratada, saúde, educação. Justifica utilizar dinheiro público para financiar, por exemplo, uma equipe de pólo aquático? Existe uma mística de que o esporte resolve os problemas sociais, que praticando ginástica olímpica teremos menos bandidos nas ruas. Nunca vi evidência disso, apenas falácias. Não é por falta de uma atividade esportiva que alguém vira traficante.

Outro argumento é que o esporte é benéfico para saúde. Concordo. Mas como ensinava Aristóteles, a virtude está no justo meio. O esporte em excesso pode fazer muito mal a saúde. Existe esporte em excesso? Existe. Esse papo todo de superar a si mesmo pode levar a lesões sérias, algumas vezes à morte.

Se o objetivo da política de esportes é ganhar medalhas olímpicas, deixa de estar relacionado à saúde. Entramos na área do chamado alto rendimento onde os próprios limites são constantemente superados. Por que o governo deveria investir nosso dinheiro nisso? Apenas uma minoria da população chega a este nível, para inspirar e dar alegrias ao povo? Quantas pessoas, além de mim, ficam horas na frente da televisão assistindo judô? E ginástica? Vela?

Gostam de citar Cuba como exemplo. Quanto os cubanos sofrem para financiar suas equipes olímpicas? Quantas pessoas estão praticando esportes em Cuba por ter seu talento como única forma de sobreviver um pouco mais decentemente do que a maioria? Isto é modelo? Só se for um modelo bastante perverso.

Vejam os atletas chineses. Parecem mais autômatos. São retirados das famílias para treinar desde os cinco anos de idade. Visitas, só nos fins de semana. Estas crianças possuem infância? Treinando 4 horas por dia? 6 horas? É mais uma aplicação da engenharia social; precisa-se de atletas, vamos fabricá-los!

O melhor modelo que vejo ainda é o americano. O grosso do investimento em esportes sai da iniciativa privada; Universidades, clubes (franquias), empresas. Além disso existe uma cultura voltada para o esporte, parte de uma sociedade que valoriza enormemente o mérito, a busca da vitória. Daí vem o espírito competitivo que colocou os Estados Unidos como maior potência do globo.

Cuba ganha medalhas, mas existe um país miserável sustentando o esporte como forma de propaganda do regime marxista da ilha. O indivíduo é apenas uma parte do aparato estatal de projeção de poder. Se um garoto americano com 2 metros de altura resolver jogar futebol, ele vai. Em Cuba não, será colocado em uma equipe de vôlei. É o triunfo do coletivo abstrato sobre o indivíduo concreto.

O esporte de alto nível é uma das atividades mais lucrativas do mundo, basta ver as empresas envolvidas com uma Olimpíadas; não vejo razão para colocar dinheiro público. Argumentam que o esporte no Brasil não consegue sobreviver sem o Estado. Será que não tem alguma coisa a ver com o governo extorquindo metade da riqueza gerada no país? Um país que ainda convive com a dengue não pode estar pensando em ganhar medalhas olímpicas.


(agosto, 2008)

u© MARCOS JUNIOR 2013