The Art of the Handwritten Note

Vivemos em um mundo cada vez mais digital. Até mesmo o telefone está ficando obsoleto, praticamente um acessório dos modernos smartphones. Estamos nos acostumando a ter uma vida organizada em torno de nossos gadgets, usando mídia social, blogs, email. Outro dia, no twitter, alguém definiu o lar como o lugar onde não se precisa colocar senha na rede wifi. Um definição que já nasce ultrapassada pois wifi sem senha já é uma realidade fora de casa; talvez o certo seja dizer que o lar é o lugar onde você tem que entrar com uma senha para acessar a rede. A sua senha, mas mesmo assim uma senha.

Assim a tecnologia supera a tecnologia e vamos caminhando para nosso futuro virtuoso. Só que neste caminho vamos nos confundindo e nos enganando pois a tecnologia, por mais avançada que seja, não consegue substituir o que não é de seu domínio. Mas por mais avançado que seja a computação gráfica, pessoas continuam pintando quadros; por mais fácil que seja gravar e transmitir um vídeo, ainda tiramos fotos; por mais fácil que seja construir cenários e atores digitais, ainda resistimos e preferimos atores de carne e osso, atuando em cenários reais. A tecnologia substitui a tecnologia, mas não substitui a arte.

Pintar um quadro é uma arte; tirar fotos é uma arte; fazer um filme é uma arte. Escrever em uma folha de papel também. Nos apressamos em enterrar como ultrapassadas coisas que na essência jamais serão. Escrever um simples cartão, ou uma carta, é uma dessas coisas. Podemos matá-las, mas não superá-las.

É o que tenta nos lembrar Magaret Shepperd em seu pequeno e simpático livro The Art of the Handwritten Note, um pequeno manifesto que tenta resgatar a importância de se colocar três frases e uma assinatura em um papel; uma arte quase perdida mas que ainda pode ser resgatada, não como uma questão saudosista e melancólica, mas por simples questão de bom gosto.

Talvez seu argumento mais convincente seja que no meio de todos estes bytes trocados, receber uma "note", por mais simples que seja seja uma agradável surpresa e um sinal de consideração especial. Algo que alguém teve de perder alguns minutos(em uma época que precisamos cada vez mais do tempo), tanto para escrever quanto para postar, para simplesmente nos dizer algo. Uma nota é algo pessoal e particular, algo cada vez mais raro em tempos de facebook e blogs na internet. A mensagem é clara: alguém se deu o trabalho de escrever algo para nós e apenas para nós.

É neste caráter particular e privado que reside a força de uma nota, que em português traduzimos mal para cartão, que na verdade é um dos meios em que pode ser transmitida. Sheperd nos lembra coisas que deveriam ser mais caras para nós, como a consideração que alguém tem por nós ou a abertura para uma comunicação que pode se mostrar mais autêntica e pessoal do que o meio digital permite. Perdoe-me os tecnólogos, mas nada substitui a caligrafia de uma pessoa, por mais terrível que ela possa parecer a quem escreve. Quem tem medo da própria letra acredite, é a última preocupação de quem lê. A nossa caligrafia é algo pessoal, e por isso mesmo valiosa, em mundo cada vez mais impessoal.

Por isso outro dia, ao almoçar em um restaurante que gostamos muito aqui em Vicksburg, além da gorjeta habitual, deixei na mesa uma "note" para o pessoal do restaurante. Em inglês, sem uma internet para corrigir, com todos os erros que possa cometer. Não importa, apenas quis expressar o agradecimento que temos por ter um bom lugar para almoçar e, principalmente, todo o carinho no atendimento.

Não estava lá para ver o resultado, mas acredito que o pessoal do restaurante deve ter ficado inicialmente surpreso e depois feliz com as palavras no papel. Para quem trabalha arduamente, especialmente em algo que gosta, é sempre bom ser reconhecido. Agradeço a Sheperd pela lição. E você, o que está esperando para escrever uma cartão e enviar para alguém? Pode ser de feliz aniversário, uma agradecimento por um convite, um pedido de desculpas ou mesmo as condolências por alguém que partiu. Nunca é tarde para mostrar o quanto nos importamos com as pessoas. Acredite, vale a pena.



u© MARCOS JUNIOR 2013