Uma reflexão sobre o casamento


Para a grande maioria das pessoas, o casamento é parte essencial da vida. Há exceções, claro, mas em todas as civilizações, em todos os tempos, homens e mulheres se uniram para formar uma família e sempre foi através da família que o homem se integrou à sociedade. Mas este texto não tratará da família, não diretamente, mas sim do casamento, sua principal fonte de formação. No casamento duas pessoas se unem de forma exclusiva e eterna com o objetivo de viver uma vida em comum em um ato que só atinge plena signifação diante da transcendência. Há algo superior ao mundo que faz com que as pessoas tenham a necessidade natural de se casarem e é diante da transcendência que efetivamente este casamento se realiza.

O objetivo deste texto é apresentar minha reflexão pessoal sobre o casamento. Longe de mim querer ensinar alguém sobre o que seja e, principalmente, o que precisa para dar certo. Apenas quero mostrar o que meus  13 anos de experiência pessoal, e mais um tanto de casamentos observados, me ensinaram neste tempo todo. Enfim, trata-se de um entendimento bem pessoal que pode ou não ajudar outras pessoas, ou pelo menos levá-las a pensar um pouco mais sobre o assunto.

O casamento possui duas características essenciais. Ele é celebrado para ser exclusivo e eterno. Na prática muitas vezes estas características não se concretizam, mas é importante ter em mente que para dar certo é preciso que se tenha este entendimento na hora de assumir este compromisso. Há uma tendência bem moderna de considerar que um casamento é uma espécie de contrato que durará enquanto satisfazer ambas as partes. Se é assim não precisa casar, não precisa revestir o ato de todo um simbolismo diante de toda uma comunidade. Basta ir a um cartório, reunir algumas testemunhas e pronto, contrato celebrado. Muitos fazem assim, e pode até dar certo, mas é muito mais difícil manter este casamento quando sua base é apenas legal. O casamento vai além disso, tem uma ligação com a transcendência, com a eternidade. Por isso sempre achei de certa forma vazia as cerimônias de casamento que pretendem deixar qualquer aspecto religioso de fora, seja ele qual for. A religião é a forma de se ligar com o que está além deste mundo e acredito sinceramente que um casamento sem religião não é pleno de potencialidade e significado. É preciso ter fé para efetivamente se casar. Ao contrário do adágio popular do que vale é o casamento civil, acredito sinceramente que o valor do casamento está em tudo que não está  no papel; está na sinceridade da promessa feita diante de Deus.

O casamento tem como um de seus fundamentos um grande paradoxo. É preciso que os noivos tenham em mente que não merecem o outro, que tudo deve ser um grande engano. Aquela pessoa é tão especial que não é possível que goste de mim. Essa idéia absurda é base para um bom casamento pois expressa talvez a maior das virtudes, a humildade. Sem humildade diante do objeto amado não há amor verdadeiro e sim desejo de posse, que é uma manifestação do egoísmo. Deve-se notar que humildade não significa submissão, apenas que o tu tem primazia sobre o eu, ou que o eu só atinge sua plenitude quando conjugado ao tu.

O casamento é uma relação de parceria. O amor romântico, ponto de partida para o ato de apaixonar-se, é apenas uma componente do casamento. Sua essência não está nele, mas no verdadeiro sentido de amar, na sua efetivação como verdadeira amizade. O romantismo no casamento não pode ser supervalorizado e considerado a base para sua manutenção, até porque ele varia com nossos próprios humores. O que deve permanecer e sempre crescer é o sentimento de amizade, de parceria, de companheirismo. Um casal são dois companheiros em uma incrível jornada que é viver uma vida a dois, de dividir tudo que é importante nessa caminhada.

Decorrente da amizade, há a necessidade de comunicação. Isso não quer dizer que um casal tenha que discutir tudo ou passar os dias discutindo a relação, como se diz por aí.  Um casal tem que ter um canal permanente para se comunicar no que é verdadeiramente importante. Amizade significa estar aberto para a outra pessoa sempre que ela precisar. Não é isso que exigimos de nossos amigos? Maior ainda é essa obrigação com o maior deles, aquele que escolhemos para dividir o que temos de pior. Casar também é escolher um cúmplice para conhecer nossos defeitos  e nos ajudar a superá-los. Pensem nisso quando comparar uma esposa com uma amante. É apenas para uma delas que você mostra o seu verdadeiro ser, aquele que não é muito agradável de se ver.

Desculpem-me os moderninhos, mas o casamento não é uma família. A família só se concretiza quando o casal se coloca em segundo plano e se abre para a vida, recebendo pequenos seres sob sua responsabilidade. Antes que me perguntem, sim, esses seres são crianças. Os termos modernos de família de dois ou até família de um só são vazios de significado. Qualquer criança ao desenhar uma família colocará um casal e crianças, por vezes até o cachorro, mas o sentido de família só se completa com os filhos. Não quer tê-los? Escolha sua, mas não ache que formou uma família. É uma espécie de caráter missionário de um casamento, um objetivo que não pode ser relegado para a tal da hora certa. A hora certa é a da providência e não dos nossos caprichos pessoais. Lembram da humildade? A felicidade daquele que chega precede a do casal pois a felicidade de um filho se transforma na felicidade do próprio casal. Sem essa abertura para a vida, sem esta humildade de se colocar em segundo plano para a existência de um outro, não há muito sentido em falar de família.

Casamento não é só alegrias mas é um promessa constante de felicidade. É uma promessa de servir, primeiro ao cônjugue, depois à família. Mais do que isso, é se sentir feliz em servir. Pode não ser sempre assim, podemos ocasionalmente reclamar de acordar de madrugada para dar uma  mamadeira ou de ter que mudar hábitos que incomodam o outro, mas no fundo temos que ter a sensação de felicidade de estar fazendo algo para alguém e não para si mesmo. Ser feliz é se libertar dos nossos próprios vícios, principalmente do egoísmo. Aquele que vive para satisfazer seus prazeres não deve se aventurar no casamento, é perda de tempo. O casamento é tão bom que nos ensina a não nos subordinar aos nossos desejos e é com essa liberdade que nos aproximamos da felicidade.

Por tudo isso que o grande obstáculo para um casamento é o orgulho, a vaidade. Paulo alertou em uma de suas epístolas, é o maior dos pecados pois todos se originam dele. É o oposto da humildade, base para o casamento. Quando se coloca o eu acima do tu, abre-se rachaduras no casamento.  Isso não quer dizer que acabou, mas que feridas estão sendo criadas e que devem ser tratadas. Por conta da vaidade erramos, por vezes muito. Terminamos por machucar aquele que juramos amar e proteger e tudo por que? Por coisas mínimas e sem significado, por caprichos, por desejos fúteis e necessidade de afirmação. Em resumo, por nosso próprio orgulho.

Amar é perdoar. A frase nunca vou te perdoar não tem lugar em um casamento. É uma das ligações com a transcendência, com Deus. Por mais imperdoável que seja um determinado ato, a pessoa deve ser perdoada quando verdadeiramente arrependida. Como saber se ela realmente se arrependeu? Quando ela tiver tanta vergonha do que fez que estiver convicta que jamais faria novamente. Quem pede perdão mas sabe que errará de novo se tiver a oportunidade, não se arrependeu. Quer apenas o perdão para continuar como antes. O arrependimento transforma e muitas vezes dá outra luz a um casamento pois ressalta a importância do amado, recorda coisas que se perderam e coisas que nunca se notou. Amar é abrir para o outro, é estabelecer vínculos e ligações. Por isso Platão dizia que o amor é o grande arquiteto do universo. Nunca é tarde demais para pedir perdão e para perdoar. Enquanto houver esperança, um casamento pode ser salvo e só duas pessoas podem salvá-lo e assim o farão quando deixarem o orgulho de fora e se abrirem para a humildade.

Concluindo, o casamento é a expressão mais forte dos dois primeiros mandamentos. Através dele nos ligamos a Deus e ao próximo por um laço de exclusividade e eternidade. Não há sentido em casar-se se não acreditar sinceramente que é para sempre e para o outro. Há uma dupla fidelidade no casamento, ao ser amado e à verdade, que é a expressão do divino. Nos momentos difíceis, e haverão, devemos sempre lembrar do votos que fizemos de livre vontade, proteger e amar, nas horas boas e difíceis. E sobretudo devemos combater a maior ameaça a um casamento, o nosso próprio orgulho.


u© MARCOS JUNIOR 2013