We're not gonna take it

Na Opera Rock de Pete Towshend, interpretada magistralmente pelo Who, talvez meu disco preferido, Tommy é o líder espiritual de um culto que exige de seus seguidores que passem pela mesma experiência espiritual de seu mestre tornando-se cegos, surdos e mudos. Só assim poderiam ver a luz.

O fim justificaria toda a privação de liberdade com a nova condição, um futuro radioso é prometido a eles. No fim, eles se revoltam e bradando "We're not gonna take it" e literalmente quebram a banca. 

É assim que vejo aqueles que defendem o Estado como grande transformador político. Em muitos casos, já passaram para o estágio de verdadeira adoração. Lembrei também de uma frase que li há pouco tempo em um artigo da Dicta e Contradicta: todo ser humano tem um mestre. O problema é o mestre que escolheu para si.

O mesmo problema já tinha abordado por Giovanni Reale em "O Saber dos Antigos". Quando Nietzsche evidenciou que o homem moderno tinha matado Deus, a pergunta que ficou foi: quem assume seu lugar? Reale aponta que a tragédia do homem passou a ser a substituição de Deus em sua vida. Uns escolheram o hedonismo, outros a ciência, outros a violência, a ideologia, o materialismo e assim vai. Está na morte de Deus, no niilismo, a raiz dos males atuais.

Vejo outros deuses atuando no coração dos homens e o Estado é um deles. Em um mesmo conceito foi concentrado nação, país, governo, virtude e futuro. Tudo que é importante para o homem deve ser gerido pelo Estado pois apenas este tem a superioridade moral necessária para lidar com nossos problemas. Nesta hora, enxergam-no como uma pessoa infalível esquecendo que na verdade não existe Estado, mas pessoas. Na verdade, nós somos o Estado. O que estamos transferindo é o nosso destino para um crescente grupo de burocratas profissionais e políticos, que agem sob o quarda-chuva de uma entidade divinificada.

Reparem como Tommy no início do vídeo abaixo, do filme de Ken Russel, corrige seus seguidores tomando de suas mãos bebidas, cigarros e mais interessante ainda, adverte uma pessoa que um "velho senhor normal" mostrando o ideal transformador de sua mensagem. Todos estes fogem do padrão que deseja estabelecer:


Hey you, gettin' drunk,

So sorry, I've got you sussed.

Hey, you, smokin' mother nature,

You missed the bus.

Hey, hung up old Mister Normal,

Don't try to gain my trust.

'Cos you ain't gonna follow me

Any of those ways,

Although you think you must!

Now you can't hear me,

Your ears are truly sealed!

You can't speak either,

'Cos your mouth is filled.

You can't see nothing,

And pinball completes the scene.

Here come willing helpers

To guide you to

Your very own machine!


Onde entra a máquina de Pinball? Não seria uma versão do famoso pão e circo? Ou de forma mais sutil, a máquina de Pinball é tudo aquilo que afasta do homem da compreensão do que está acontecendo, da privação que está se submetendo em favor de um ideal, por mais sem sentido que seja. Pete Towshend não estava condenando o Estado em sua obra, fazia uma crítica das falsas religiões. O fato do Estado encaixar perfeitamente em sua criação é mais uma evidência que o Estado, da forma que é visto hoje por grande parte das pessoas, tornou-se a maior delas. Não nos deixemos enganar, como diz a música, sempre terá ajudantes solícitos prontos para levar-nos para nossa "very own machine".

Parafraseando Marthin Luther King, eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que as pessoas removerão as vendas de seus olhos, os tampões dos ouvidos, a rolha de suas bocas e bradarão como os seguidores de Tommy: we're not gonna take it! We're not gonna take it!

Quanto mais este dia demorar, maior será as dificuldades para eliminar o próprio monstro que a sociedade elevou a uma condição que nunca deveria ter alcançado.


Outubro, 2009

u© MARCOS JUNIOR 2013