René Girard - Mentiras Românticas e Verdades Romanescas

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Resumo

René Girard apresenta uma teoria que não só unificaria as obras dos quatro grandes da literatura ocidental (Cervantes, Proust, Dostoievski e Flaubert), como dá a chave para compreender  um tipo especial de desejo existe na condição humana, o desejo mimético. Segundo Girard, ao ideal romântico do sujeito desejar o objeto em uma relação de amor à primeira vista, se coloca a grande verdade romanesca, a de que o sujeito se liga ao objeto através de um mediador, um outro. Dessa forma, não é verdade que a origem do desejo está no próprio sujeito, mas naquilo que ele julga que o outro deseje. Esse tipo de desejo, também chamado de desejo triangular, estabelece uma relação entre sujeito, objeto e mediador, o que estaria evidente nos grandes romances de nossa cultura.

Idéias principais

- No desejo mimético, ou desejo triangular, o sujeito ama um objeto não pelo objeto em si, mas pelo desejo que julga existir em outro que tem por modelo, consciente ou não. Dessa forma, o sujeito abdica de escolher os objetos de seu afeto e passa a cobiçar os que seu modelo desejaria.

- No caso de Don Quixote, o modelo é o herói de cavalaria Don Amandis, um personagem de ficção. Don Quixote deseja realizar as aventuras que Don Amandis teria realizado. Nesse caso, existe uma mediação externa pois não há risco do sujeito enfrentar seu rival. No mesmo romance, em diversos pontos Sancho Pança tem Don Quixote como modelo e passa a desejar ser governador de uma ilha pelo fato do cavaleiro o ter sugerido.

- Madame Bovary deseja amantes não pelos amantes em si, mas para viver as emoções que leu nos romances populares de sua época. Seu modelo é do mesmo tipo de Don Amandis, um personagem de ficção.

_ Já no caso de Julien Sorel ou do Homem do Subsolo de Dostoievsky, o modelo é real e a rivalidade se instala. Para Girard a origem do desejo mimético está na vaidade, na necessidade que o sujeito tem que o objeto de seu apreço também seja desejado por outro, principalmente por alguém que admire. O sujeito passa a querer ser o mediador.

- Em alguns casos passa a existir uma dupla mediação, em que o outro também vê o sujeito como seu rival. O resultado é uma tenção crescente que pode levar a consequências trágicas.

- As grandes obras de Cervantes, Stendahl, Flaubert e Proust possuem estrutura similiar, todas explorando os problemas do desejo mimético. Girard chamou esses romances de verdades romanescas, por tornar explícita essa condição do homem. Em oposição, autores menores produziram mentiras românticas, cuja característica é esconder do leitor a mediação do outro e fingir que o desejo surge da ligação direta de sujeito e objeto.

- Nessa vaidade, o homem rejeita o aspecto da transcendência. Passa a existir uma transcendência desviada, colocando o outro como novo Deus.

- Essa condição humana se reflete nos grupos sociais e explica muito de fenômenos como as ideologias, revoluções, radicalismos e até mesmo as guerras modernas.

- Nas verdades romanescas, os heróis encontram no final a iluminação para seu mal, seja na morte ou no desejo da morte. Ao rejeitar a mediação do outro, tomam posse do amor verdadeiro, ao mesmo tempo que retomam o ideal de transcendência. Dostoivsky chega ao ponto de sugerir que o cristianismo era a verdade da condição humana.

Conclusão

Girard argumenta com uma análise impecável de grandes romances da literatura ocidental, especialmente dos quatro autores citados. O estudo do fenômeno do desejo mimético é de fundamental importância para entender a modernidade. O drama humano começa quando o sujeito é incapaz de perceber a estrutura triangular de seus desejos. Apenas tomando consciência de onde sua vaidade o está levando pode assumir o controle de seu próprio destino. As conclusões de Girard podem ser levadas, como sugere na obra, para os grupos sociais, o que explicaria diversos acontecimentos históricos como revoluções e lutas pelo poder.

u© MARCOS JUNIOR 2013