Carlos Alberto Sardenberg

Neoliberal não, liberal

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Carlos Alberto Sardenberg captou muito bem, em poucas páginas, os grandes entraves para o desenvolvimento econômico no Brasil. Fugindo dos lugares comuns do discurso político no Brasil, o comentarista econômico da rádio CBN mostra que o grande problema está na cultura brasileira que é francamente anti-liberal e a favor do estado como nosso salvador, quando na verdade é o causador da grande maioria dos entraves para a criação de riquezas no país.

Nossa história recente mostrou que nada é o que parece no Brasil, a começar pela diferença de direita e esquerda no país. No fundo, todos os partidos brasileiros são, em maior ou menor grau, de esquerda. A confusão começa quando se considera o regime militar como de direita pela oposição dos movimentos de esquerda e alinhamento, pelo menos na primeira parte, aos Estados Unidos, quando na verdade possuía uma política econômica fortemente baseada em um estado forte com amplo controle de estatais nos mais diversos campos da economia

Veio Fernando Collor e venceu as eleições de 1989 com um discurso francamente liberal e seu governo iniciou realmente com uma ampla abertura econômica cuja faceta mais visível foi a quebra das barreiras na área da informática. Entretanto a corrupção de seu governo acabou por sepultar de vez o discurso de direita no Brasil, pelo menos por um bom tempo.

Fernando Henrique Cardoso e seu governo do PSDB não tomou medidas liberais por convicção e sim por absoluta necessidade. Para enfrentar o problema da inflação foi necessário diminuir o tamanho do estado para equilibrar as contas públicas. A infra-estrutura do país estava quebrada, era preciso fazer caixa e as privatizações vieram. Foi uma ação decisiva dos tucanos, mas envergonhada. Quando a oposição ao desmonte do estado tornou-se significativa, o governo abandonou o programa nacional de privatização para nunca mais retomá-lo. Nas eleições de 2006 ficou patente que ninguém no PSDB estava disposto a defender os atos liberais do governo FHC.

Foi assim que uma agenda liberal foi parar nas mãos de um partido de esquerda e implementado dentro de um quadro de necessidade. Sandenberg mostra a diferença do que aconteceu na Inglaterra onde Margaret Tatcher assumiu governo, explicou para o eleitor o que pretendia e com decisão promoveu o liberalismo clássico.

A saúde de uma democracia, advoga Sandenberg, depende de uma alternância de governos de esquerda e direita, cada um impondo limites à visão do outro e buscando um equilíbrio entre a criação de riquezas e sua distribuição. Esta alternância é saudável na medida que é um chamamento à responsabilidade e busca dos verdadeiros anseios de uma nação e não a imposição da visão política de um grupo.

A conseqüência da história econômica recente é uma oposição muitas vezes irracional da elite cultural e política do país ao liberalismo econômico em seu sentido clássico. O que Sandenberg chama atenção é para o fato da eleição de Fernando Collor ter provado que uma candidatura com agenda liberal pode sim vencer o cerco e convencer o eleitor a apostar nela; o que falta é liderança política disposta a tanto. O Brasil precisa apostar mais na criação das riquezas ao invés de jogar todas as suas fichas na distribuição do pouco que consegue criar.

FHC e Lula promoveram um amplo desenvolvimento de programas sociais em detrimento de investimento em infra-estrutura e educação (esteio de qualquer programa de desenvolvimento econômico). Esta política tem um custo que só se ampliará com o passar to tempo, até que o país não conseguirá mais pagá-lo. A ausência de um equilíbrio entre o futuro (criação de riquezas) e presente (distribuição) é responsável pela estagnação do país e comprometimento do equilíbrio financeiro a médio e longo prazos. Um ajuste virá mais cedo ou mais tarde e será mais doloroso com o passar do tempo.

Sandenberg faz uma defesa dos princípios liberais mostrando a necessidade do Brasil promover uma maior abertura comercial, reduzir a carga tributária, desburocratizar a atividade econômica e reduzir o tamanho do estado. Defende a retomada das privatizações, incluindo gigantes como Petrobrás e Banco do Brasil. Argumenta que elas não servem ao povo, como se defende, mas sim aos interesses do partido do poder. Na prática já estariam privatizadas, só que uma privatização feita nos corredores de Brasília e longe dos olhos dos eleitores. Mostra que as privatizações realizadas no governo FHC foram um sucesso completo, principalmente nas telecomunicações e no caso da Vale do Rio Doce.

Neoliberal não, Liberal é para lavar a alma de quem acredita na liberdade econômica como essencial para o desenvolvimento do país e não suporta mais o lugar comum que se tornou o pensamento econômico no Brasil. Tudo em um livro curto, claro e com extrema objetividade. Sandenberg defende suas idéias não para a elite cultural brasileira, mas para o cidadão comum, aquele que sente os efeitos reais da estagnação econômica e que tem a intuição que precisamos apostar mais em nosso futuro.


Junho, 2009


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