Carlos Eduardo S Gonçalves

Economia Sem Truques

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Carlos Eduardo S Gonçalves

Bernado Guimarães


Em 1992, transitou na Assembléia Legislativa de São Paulo um projeto de lei que obrigava cinemas, teatros, circos e casas de espetáculo a cobrarem o dobro do preço do ingresso de todas as pessoas que não tivessem a carteirinha de estudante. Cobrar mais barato, qualquer valor inferior ao dobro do preço cobrado aos estudantes, constituiria crime de estelionato.


Essa lei da entrada-dobrada para os não portadores de carteirinha foi aprovada no dia 13/5/1992 e vigora até os dias de hoje, sendo mais conhecida como lei da maia-entrada.

Há algum tempo que sentia falta de noções básicas de economia, cada vez mais necessárias para entender melhor o mundo. A leitura deste livro foi meu primeiro passo e atendeu muito bem o objetivo pois trata-se de uma obra bem didática, de fácil leitura e com muitos exemplos práticos tirado do nosso dia-a-dia.

Encontrei explicação para algumas idéias que já tinha intuitivamente, e aprendi algumas outras. Também discordei de algumas, o capítulo sobre a análise econômica da liberação das drogas é um exemplo. Mas na maioria dos capítulos concordei plenamente, como o que trata da meia entrada nos cinemas e teatros.

Com muito bom humor, os autores tratam da idéia central do livro: as escolhas. Não é por acaso que o batizaram com o sub-título de "O mundo a partir das escolhas de cada um". A economia é vista a partir do indivíduo e principalmente como uma escolha diária. Não se melhora a economia por decreto, a chamada "economágica", mas melhorando as escolhas. Justamente o contrário que fazem os políticos brasileiros.

Desta forma ficamos sabendo que são três os fatores que interferem na formação do salário: as escolhas das empresas que demandam trabalhadores; as escolhas dos trabalhadores que vendem seu trabalho; e o processo de barganha entre empresas e trabalhadores.

Assim, uma lei como a do décimo terceiro é inútil pois não incide em nenhum dos três fatores. Em um primeiro momento, décadas atrás, os trabalhadores foram beneficidados, mas assim que os contratos em vigor tiveram seu término o mercado se ajustou. Ao invés de dividir o valor do trabalho por 12 meses, passou-se a dividir por 13. O trabalhador ganha um salário a mais, mas este salário é menor.

Mostram também que o comércio internacional é benéfico para os dois países e, pasmem, principalmente para o mais pobre. Delírio? Basta observar com um pouco mais de atenção as restrições que os países mais desenvolvidos fazem com os países subdesenvolvidos para entender que existe razão neste raciocínio. Apesar de ambos lucrarem a longo prazo, no curto há uma perda dos países mais ricos pois o comércio provoca, para eles, o aumento da desigualdade econômica e nem sempre o governo pretende pagar por este preço.

Outro ponto interessante é a formação dos preços. O preço não é algo diabólico no capitalismo como tentam vender seus críticos, mas um mecanismo para sinalizar para produtores e consumidores duas coisas: o valor atribuído por uma sociedade a determinado bem e o custo que esta mesma sociedade incorre ao produzi-lo. Trata-se de um mecanismo de ajuste entre oferta e demanda, quando é alterado artificialmente rompe este equilíbrio e a sociedade pode ser levada a produzir o que não precisa, daí o problema dos subsídios agrícolas.

Por fim apresentam o que seriam os três motivos que justificam a intervenção do estado na economia. O primeiro é quando o monopólio é inevitável, como na produção de energia. Não significa que a energia deverá ser necessariamente fornecida por uma estatal, é até melhor que não seja, mas que o governo regularizará o mercado.

O estado pode interferir também quando houver problema de assimetria de informações. O mercado de seguro desemprego não teria como funcionar na economia privada porque o segurado tem muito mais informações sobre sua chance de ser despedido do que uma potencial seguradora resultando em um seguro inviável. O estado então assume este mercado e fornece o seguro desemprego. Também existe o que os autores chamam de curioso "mercado das almas" ou a impossibilidade de antes de nascer fazer um seguro para o caso de dar o "azar" de nascer em um lar pobre.

Por fim o estado deve intervir no caso de externalidades negativas para toda a sociedade, como a poluição ou a violência.

É um livro simples mas muito elucidativo e o primeiro passo para entender melhor como funciona a economia.


(Agosto, 2008)


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