David P. Goldman

How Civilizations Die - (And Why Islam is Dying Too)

O elefante no centro da sala: a demografia


The European environmentalist who wants to shrink the world’s population to reduce carbone emissions will spend her declining years in misery, for there will not be enough Europeans alive a generation from now to pay for her pension and medical care.

Ao longo da história, civilizações se desenvolveram e foram extintas. Goldman analisa os fatores que levam uma civilização a perecer, principalmente sobre o enfoque da demografia. A recusa de um ou mais gerações em produzir herdeiros suficientes é a consequência de uma doença espiritual gerada pela falta de uma religiosidade que coloque a transcendência como a luz sobre as questões do mundo. A falta de fé em uma continuidade após a morte leva ao desespero e a tentativa vã de viver uma vida excencialmente material, que exclui o obrigação de criar dos próprios filhos. Inspirado no historiador Oswald Spengler, mas fugindo de seu determinismo, Goldman expõe sua tese ao analisar o islã, que ao contrário do que se pensa, vive uma crise de fé diante do encontro com o ocidente e reduziu suas taxas de natalidade de forma sem precedentes no mundo.

Dividindo suas obra em três partes, analisa primeiro a questão do islã. As baixas taxas de natalidade nos países muçulmanos do oriente médio mostram que no futuro próximo esses países terão envelhecido brutalmente. O que já é um grande problema na Europa, se tornará uma tragédia em uma região pobre, que depende praticamente da exportação de petróleo e que importa praticamente todo alimento que consome. A primavera árabe é a primeira amostra da revolta de uma juventude que não tem perspectivas e que já começa a sentir o problema de sustentar uma população idosa crescente. O Irã já é uma das mais baixas taxas de natalidade no mundo e sabe que passou do ponto de retorno possível, é uma civilização que começou seu caminho para a extinção e não tem nada a perder no jogo político mundial, o que explica muitas de suas atitudes.

A segunda parte trata da secularização na Europa que se seguiu ao nacionalismo religioso que se consolidou na Guerra dos 30 anos. Antes um continente cristão, agora enfrenta a problemática de uma população idosa crescente que ameaça o futuro de toda região.  Algumas religiões conferem aos seus crentes esperança na continuidade, o que leva a manutenção dos níveis de reprodução. Goldman defende o retorno ao estudo da teopolítica, a influência da religião na política, que foi esquecida com o humanismo, para interpretar os fenômenos de nossa época. A geopolítica é insuficiente pois parte da premissa que as nações agem de forma racional na defesa de seus interesses. Uma civilização enfrentando sua extinção deixa de ser racional e não se importa mais com auto-interesse.

Na terceira parte tata dos Estados Unidos: ao contrário do que se propaga, o futuro não será um mundo pós-americano justamente porque os Estados Unidos sobreviverá à Europa e China. Ao contrário desses atores, os americanos estabilizaram sua taxa de reprodução no nível de recompletamento, o que expressa o caráter religiosos de seu povo. Isso porque o país foi fundado sobre uma concepção religiosa de ideais e não por caráter étnicos e nacionalistas, ao contrário das nações européias.

Com fartura de argumentos, Goldman mostra que a recusa de uma civilização em se reproduzir em níveis aceitáveis condena seu próprio futuro, como aconteceu com Atenas, Esparta e Roma. Antes das derrotas militares e das invasões bárbaras que sepultaram seus destinos, houve forte queda nas taxas de natalidade indicando um pessimismo em relação ao futuro. Os dados demográficos do oriente médio e Europa não deixa margem à dúvidas que mantido os níveis atuais de natalidade, esses países envelhecerão rapidamente e diminuirão de população. A Alemanha perderá 46% de sua população até o ano de 2100; a Rússia 55%. Nenhuma sociedade é capaz de se manter com uma perspectiva dessas. Mesmo que se mudem radicalmente as taxas de natalidade, as mães dos próximos 40 anos já nasceram em grande parte, o que configura o chamado ponto de não-retorno. Para Goldman, a margem para qualquer reação é baixíssima e essas civilizações já estão condenadas.

O livro é bastante interessante, bem escrito e estruturado, com abundância de dados. Muito interessante foi ter colocado suas conclusões parciais na forma de lemas, chamando de leis de Spengler. Sem receio de colocar as coisas como são, Goldman abre todo um campo de estudos e especulações. Uma obra para se colocar na estante para consulta constante nos próximos anos.

Há algum tempo que leio as colunas de Goldman no Asia Times e suas análises da política contemporânea, sob a luz da demografia, sempre me interessaram e se mostraram mais razoáveis do que tudo que eu lia nas colunas de política e economia dos grandes jornais. De maneira geral, as baixas taxas de natalidade são colocadas em segundo plano nas questões políticas mundiais, como se não tivessem influência. Contra essa maré, Goldman coloca essa questão como central e basta observar tudo que tem acontecido nos últimos 3 anos para entender que há muito mais bom senso nas suas hipóteses do que em 99% do que está sendo dito ultimamente.


Julho, 2013


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