Demétrio Magnoli

Uma Gota de Sangue

MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue. História do Pensamento Racial. Editora Contexto, São Paulo, 1ª Edição, 2009.


Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em geografia humana e um dos raros acadêmicos da USP que não é refém da idiotia esquerdista que tomou conta da Universidade, especialmente nas Ciências Sociais. Conhecido também por seus livros de geografia para o segundo grau, excelentes por sinal, especialmente o que faz um panorama do último século e pelos seus artigos sobre política externa, que inclusive rendeu um outro livro, não menos excelente, chamado O Nome do Jogo.

Magnoli é um acadêmico que não se limita ao superficial, ao contrário, busca aprofundar o estudo do problema em busca da verdade, muitas vezes escondidas sobre camadas de imposturas. Nunca li um texto seu que não estivesse ancorado em conhecimentos sólidos o que indica que só escreve sobre o que tem conhecimento, sem procurar evitar as polêmicas sempre que necessárias. Pode-se discordar de conclusões suas, mas elas estão sempre assentadas sobre trabalho sério, não são opiniões jogadas ao vento.

Uma Gota de Sangue se refere às primeiras leis raciais americanas que determinaram que qualquer cruzamento de um branco com um negro geraria um negro pois este teria uma gota de sangue negro. Seria uma espécie de contaminação, bem de acordo com as primeiras teorias raciais da ciência que colocavam a raça negra como inferior. Magnoli mergulha na história do pensamento racial, tanto nas américas quanto na África, sem deixar de tocar no problema típico do oriente e suas castas. A histórias do apartheid na África do Sul, Luther King e Malcon X, entre outros, na América, a questão indígena, o nazismo, os conflitos étnicos africanos, tudo é tratado com cuidado e embasamento por um autor que leva a sério seu trabalho. Ao final do livro, entrega o que promete, a história do pensamento racial e suas vertentes.

É bastante interessante que depois do início do século XX, quando a ciência afirmava a diversidade racial, mais que isso, a superioridade racial, levando alguns países, como os Estados Unidos a adotar a regra da gota de sangue única, estejamos voltando ao ponto inicial com os programas racialistas, mesmo com a ciência mostrando que inexistência da divisão racial. As diversas leis de cotas querem estabelecer o que não existe na natureza, a separação do homem por sua cor. Martin Luther King em seu discurso histórico, chamou os Estados Unidos nos brios com a constituição na mão, clamando pelo resgate da proposta histórica de sua nação, a da igualdade entre os homens:

Eu tenho o sonho de que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Não sobra muito de Luther King nos dias de hoje em que a palavra-chave se chama multiculturalismo. Um país deixou de ser uma nação para se tornar um conjunto de nações, com a raça como critério de divisão, cujas relações devem ser reguladas por lei e a igualdade entre elas buscadas por força coerciva dos estados nacionais. Por igualdade não se entende oportunidades e sim resultados, levando à adoção das inúmeras leis racialistas, também chamadas de cotas.

Magnoli revela o papel da Fundação Ford na promoção do multiculturasimo ao redor do mundo, inclusive no Brasil, onde Fernando Henrique Cardoso tomou uma participação ativa, inclusive em sua presidência. Interessante observar que contrariando o senso comum, coube a um presidente americano republicano, Richard Nixon, o grande avanço do emprego das cotas raciais nos Estados Unidos. Magnoli mostra também que os critérios americanos são impossíveis de serem aplicados no Brasil, um país de intensa miscigenação. Como estabelecer uma linha divisória entre negros e brancos em um país onde os pardos caminham para se tornarem a cor predominante em poucos anos?

Para que o pensamento racial prosperasse no Brasil, foi necessário atacar em duas frentes. Primeiro, matar Gilberto Freyre. O pensamento do sociólogo que mostrou a miscigenação como uma grande contribuição do Brasil para a humanidade tinha que ser desmontado e transformado em uma forma mais dura de racismo, o racismo escamoteado. Para os arautos do racialismo, é preferível a existência de leis raciais explícitas e o confronto das raças do que uma forma de racismo não declarada que segundo eles existe no Brasil. Após a morte de Freyre, era preciso matar também o abolicionismo. A abolição dos escravos no Brasil não mais seria a obra que uniu jovens liberais, ricos e pobres, pequenos e grandes comerciantes, Igreja, políticos e tantos outros em talvez um primeiro projeto nacional, levando o Império a ceder a um desejo realmente popular, para se tornar a obra das elites econômicas para explorar ainda mais os negros através de uma falsa liberdade.

O lançamento deste livro foi cercado de protestos de grupos de pressão racialistas acusando-o de negar a existência de racismo no Brasil. Li algumas declarações de seus líderes, muitos afirmando que não leriam a obra por sua conotação preconceituosa. Não há debate possível com quem se recusa a ler o pensamento que julga se opor, que condena um pensador sem conhecer seus argumentos. Verdadeiras correntes foram montadas na internet para impedir a divulgação do livro, muitas para explicitamente impedir a participação de Magnoli em debates sobre o tema.

Parafraseando Martin Luther King, eu também tenho um sonho, um sonhe de que um filho meu jamais tenha que preencher um campo escrito "raça" em qualquer documento público ou privado. Infelizmente estamos caminhando na contramão deste meu sonho pois tornou-se obrigatório declarar a raça ao matricular um filho na escola. Houve um homem que viveu na Galiléia, que entre outras coisas, ensinou que somos mais espírito do que carne, e que espírito não tem cor. Prefiro continuar acreditando nele, até porque sua proposta de mundo é infinitamente melhor do que o que nos prometem todos os dias os reformadores sociais. Ninguém deve ter orgulho de ser negro. Nem de ser branco. Nem de ser índio. Aliás, o orgulho costuma ser mais um vício do que uma virtude. Se tivermos que ter orgulho de ser alguma coisa é de nossas obras concretas, obras de um indivíduo, independente da cor que carrega.

Outubro, 2009


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