Eduardo Gianetti

Auto-engano

Eduardo Giannetti trata de um dos mais importantes fenômenos sociais de todos os tempos: o auto-engano. Promove uma investigação ao longo da história de como as pessoas enganam a si mesmas quase o tempo todo e como isso afeta a sociedade em geral, recorrendo a exemplos extraídos da literatura e da vida real.

Sua investigação começa pela natureza e o valor do auto-engano, como se processa esse mecanismo? Qual a sua origem? Depois, trata da dualidade entre autoconhecimento e auto-engano, abordando desde a técnica maiêutica, celebrizada por Sócrates, e a necessidade de fugir do autoconhecimento e enganar a si próprio. No terceiro capítulo, trata da lógica do auto-engano. Como acontece? Por fim, a parcialidade moral e a convivência humana. Como se dá a questão da moral e da ética em um ambiente de auto-engano?

Gianetti é feliz ao tratar de um dos fenômenos mais importantes de nossos dias. Não por acaso, Sócrates advertiu: conheças a si mesmo. Cristo continuou: a verdade está em cada um de nós. Por que então existe esta compulsão por enganar nós próprios sobre nós mesmos? Trata-se de uma investigação interessante, procurando abordar as várias faces do problema.

Não sei até que ponto o autor tem razão em suas conclusões, mas não vejo como duvidar da existência e atualidade desse fenômeno, talvez ainda mais ampliado em tempos de internet e redes sociais. Diante do quadro atual, no Brasil e no mundo, passei a considerar cada vez mais as questões levantadas por Gianetti. Até onde o auto-engano estaria nos levando para caminhos perigosos e ameaçando a nossa própria convivência humana?


Vícios privados, benefícios públicos?

A ética na riqueza das nações

Companhia de Bolso, 1993


Despertei para o papel da ética no desenvolvimento econômico a partir de um artigo do papa Bento XVI que li no início do ano. Até então, via o problema econômico pelo foco da luta entre o livre mercado e a planificação econômica e, neste contexto, posicionei-me sempre pela mão invisível Smithiana contra o dirigismo socialista. Através das reflexões do papa eu comecei me questionar se o foco da discussão estava errada, ou seja, se o modelo econômico, por si só, seria capaz de garantir qualquer prosperidade pois é isso, em síntese, que se discute nos dias de hoje. Livre mercado ou economia planificada? Ou o meio termo da social-democracia? Bento XVI colocava que o livre mercado por si só não pode garantir prosperidade pois necessitaria ser assentado na ética de uma sociedade.


Eduardo Gianetti, economista e com formação em filosofia, segue as mesmas reflexões de Bento XVI e coloca em discussão o papel da ética na riqueza das nações. É possível obter-mos a prosperidade econômica defendida pelos liberais ou mesmo a igualdade distributiva dos socialistas, assim como a prosperidade com igualdade dos sociais-democratas, sem levar em consideração princípios éticos? Gianetti responde que não através deste livro interessantíssimo que mostra a história das idéias sobre a ética na sociedade e procurar levantar as questões e paradoxos sobre sua influência.


Para Gianetti, a ética lida com aquilo que pode ser diferente do que é, a diferença do mundo como é do mundo como poderia ser. Cada ação nossa poderia ser diferente? Poderíamos ter optado por outro caminho? Só tem sentido falar de ética quando existe a livre escolha, só se pode decidir pelo bem diante da possibilidade do mal. Se formos obrigados, por forças externas a nossa pessoa, a escolher sempre o bem, o homem estaria esvaziado de todo seu valor.


A primeira questão objetiva que Gianetti coloca é sobre o que chamou de neolítico moral, a tese de que um extraordinário avanço da ciência teria se desconectado do avanço moral gerando um hiato entre o que somos e o que podemos ser, pois o homem não estaria a altura de sua capacidade. Seria o progresso a causa do atraso moral ao transformar o caráter do homem, ao desperta-lhe a cobiça e o egoísmo? Ou seria o atraso moral um obstáculo que emperra o progresso? Gianetti refuta a tese do neolítico moral ao considerar que cada época é considerada única e diferente, sendo o passado e futuro vistos pelas categorias do presente e pelo descontentamento moral que o homem tem consigo mesmo. Não existe uma régua que se possa medir o progresso moral de uma sociedade pois são considerações que fogem ao escopo e capacidades das ciências, tanto exatas quanto sociais.


Gianetti passa a analisar o papel da ética como fator de coesão social e como fator de produção. No primeiro caso, argumenta que uma sociedade formada de homens preocupados apenas com a moralidade individual não conseguiria sobreviver, a moralidade cívica é essencial para a convivência social. Há uma tensão constante entre a moralidade individual e a cívica, entre a liberdade do indivíduo e o bem comum da sociedade. Nesta relação, o equilíbrio é essencial. Uma sociedade com a liberdade individual levada ao extremos, se desentegraria; uma sociedade sem liberdade individual seria desprovida de valor. Para ele, o valor de uma sociedade está nos indivíduos que a compõe e portanto deve haver um limite para a intervenção do aparato estatal (leis e governos) ou da moralidade cívica (opinião pública). A adesão a ao código moral não se pode dar apenas por coerção; além da submissão, esta adesão pode ser dar por identificação (desejo de dar exemplo e ser reconhecido) ou interiorização (reflexão ética).


O ponto central da obra de Gianetti, entretanto, é o papel da ética como fator de produção. Para ele, tanto os seguidores do livre mercado (Smith, Mandeville e a escola de Chicago) quanto do socialismo ocuparam-se de maneira bastante simplificada nas regras do jogo e deixaram de lado a qualidade dos jogadores. Para eles, as regras do jogo seriam suficientes para garantir a prosperidade pois esta se daria apesar da falta de ética (Smith) ou por causa dela (Mandeville). Já para os socialistas, adeptos do determinismo, a questão ética não teria sentido pois não haveria uma verdadeira livre escolha.


Gianetti rompe com esta dicotomia colocando como questão central da riqueza de uma nação a qualidade dos jogadores, sejam indivíduos, empresas ou governos. Jogar limitando-se apenas pelas leis, o que chamou de mínimo legal, é insuficiente; só através da interiorização da ética uma sociedade poderá avançar para a prosperidade. Rejeita, portanto, o egoísmo ético como condição para a riqueza.


Com enorme talento, Gianetti conseguiu escrever uma obra de leitura agradável e possui o grande mérito da honestidade intelectual. Apesar de ter suas opiniões, não deixa de mostrar com igual competência todas as faces do problema, com argumentações a favor e contra suas teses. Para ele, a discussão se o indivíduo deve servir ao estado ou o estado deve servir aos indivíduos está errada; ambos devem servir a um bem maior, ao desenvolvimento saudável da própria sociedade.


u© MARCOS JUNIOR 2013