Eric Voegelin

Na década de 60, Eric Voegelin, já um renomado professor de ciências políticas, retorna à Alemanha para fazer uma série de conferências. Ele tinha deixado Viena logo depois da anexação ao III Reich, horas antes dos agentes da gestapo baterem à sua porta. Seu crime? Expor ao ridículo as teorias raciais nazistas e a completa inadequação de Adolf Hitler como líder político de uma nação. Auto-exilado nos Estados Unidos, Voegelin se assustou ao descobrir que vinte anos depois do fim da II Guerra, importantes líderes nazistas estavam em posições de poder em plena Alemanha democrática. Era necessário um acerto de contas do alemão com seu passado, o que gerou o livro Hitler e os Alemães.

Interessava a Voegelin, sobretudo, o fenômeno da segunda realidade, ou seja, do rompimento do plano do real com o plano das idéias. O homem moderno via o mundo como ele o imaginava e não como de fato era, como se uma espessa névoa encobrisse a realidade. Dissolver essas camadas de imposturas passou a ser seu plano de vida.

Para tanto, Voegelin dedicou-se a estudar os símbolos na sociedade. As palavras estavam se tornando cada vez mais símbolos opacos porque estavam perdendo a conexão com a realidade a que se referiam. O discurso político se tornaram um teatro em que os termos utilizados referiam-se apenas a sentimentos difusos e isso se tornava um perigo para a sociedade, que passava a endossar políticas que era incapaz de compreender, seduzida pela carga emocional do discurso.

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Interessado nas idéias políticas, desenvolveu um intenso estudo sobre como elas se sucediam ao longo da história, desde a mais remota antiguidade. Percebendo que essas idéias não tinham na verdade continuidade, abandonou inacabada a série de livros que chamou de História das Idéias Políticas em favor de outra linha de investigação, de como a ordem se manifestava na sociedade ao longo da história, o que deu origem a sua grande obra, a coleção Ordem e História. Foi ao se aprofundar na filosofia grega, especialmente nos diálogos de Platão, que sua própria filosofia se iluminou.

Voegelin percebu que os fenômenos de manifestação da ordem na história eram centrais na política e que a sociedade entrava em desordem quando as almas individuais também estavam em desordem, resgatando de Platão o princípio antropológico, que a sociedade era o homem escrito em letras maiúsculas. Ao invés de se prender às fontes usuais da história, passou a considerar também as manifestações literárias, buscando entender o horizonte de consciência de uma sociedade, do que os autores precisariam saber para escrever o que escreveram. 

Para Voegelin, a compreensão da história e da política passava necessariamente por uma processo de reminiscências pessoais, onde o estudioso procurava primeiro entender como as questões a serem investigadas se colocavam concretamente para ele. Descreveu esse processo na obra Anamnese, chave para compreensão de Ordem e História e sua filosofia da consciência.

Ele identificou nas ideologias o grande obstáculo para a compreensão da realidade pois subvertia a forma como o indivíduo se relacionava com o mundo real. O ideólogo tinha um hipótese simplificadora que pretendia explicar o mundo e em função dela ele recusava a realidade quando esta contrariava a explicação ideológica. 

Eric Voegelin colocava a consciência individual como centro de qualquer processo histórico, social e político. Buscou nas suas obras resgatar o significado dos símbolos e rejeitou discutir os símbolos opacos por considerar que antes de qualquer coisa era preciso chegar a um acordo sobre os significados, ou seja, sobre os aspectos da realidade a que eles se referiam. Por isso, Voegelin era enfático na recomendação a seus alunos: não estudem filosofia, estudem a realidade. 


u© MARCOS JUNIOR 2013