G. K. Chesterton

O meu primeiro contato consciente com Chesterton foi através do livro Ortodoxia. É muito difícil um leitor honesto não se deixar impactar com essa preciosidade publicada em 1908, em que o autor mostrava seus primeiros princípios, as premissas das construções lógicas que o levaria a ver com tanta clareza não só as correntes de pensamento de sua época mas, principalmente, para onde estavam levando o mundo.

Usei o termo consciente pois na verdade por muitos anos cantei versos seus na música Revelations, do Iron Maiden. Na época não dava muita atenção na referência na contra capa do disco. Como também não liguei as coisas com o personagem Gilbert da graphic novel A Casa das Bonecas, do Neil Gaiman. 

Gilbert Keith Chesterton nasceu em 1874 e foi educado na tradicional St Paul School e na universidade começou o curso de artes mas nunca concluiu. Era uma figura gigantesca, chamando atenção por onde passava. Muito ativo nos debates orais, era um espírito alegre e mesmo seus adversários gostavam dele. Cedo se definiu pelo jornalismo e logo estava trabalhando. Com sua fina ironia, apoiando-se muito na sabedoria popular, logo tornou-se figura conhecida ao debater através de jornais com diversas figuras da época. 

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Não creio que ortodoxia seja o melhor começo para ler Chesterton, talvez Hereges seja o mais indicado. Se Ortodoxia era o que acreditava; Hereges era o que se opunha. Didaticamente Chesterton analisa as correntes culturais de seu tempo, retratando os pensadores que disputavam a batalha da cultura, alguns hoje esquecidos, outros ainda referenciados, e mostrava com extraordinária lucidez duas questões fundamentais: o que o autor acreditava _ e que não estava mostrando _, sua premissas ocultas, a heresia e para onde essa heresia nos levaria. Tata-se de um livro denúncia de toda uma cultura, que se chamou de modernidade, que entregava justamente o contrário do que prometia; que sob o símbolo de novidade reentroduzia no mundo idéias que já tinham sido vendidas, algumas há muitos séculos.

É muito difícil classificar o que foi Chesterton. Declarava-se jornalista e em grande parte foi que fez em vida, seja através de artigos, disputas jornalísticas _ ecos de um tempo mais livre para a discordância _ ou organizando publicações. Chamá-lo assim, entretanto, seria tomar o todo por apenas uma de suas partes. Através de seus livros, ficção e não-ficção, contos de detetive, poesias, ensaios, desenhos, tratou de tudo e mais um pouco, conectando a tradição ocidental com o que se produzia na época. Quem ler a inesgotável obra de Chesterton terá um curso de cultura do ocidente, incluindo seus aspectos históricos, filosóficos, teológicos e literários. No entanto, não se tratava de um simples comentador cultural. Seu interesse pela cultura se dava por vê-la como expressão dos atos e pensamento do ser humano, este sim seu grande interesse.

Pode-se dizer que Chesterton foi um estudioso da alma humana. A partir  dos dilemas e angústias do homem comum, sem resposta na tradição cristão, procurou uma solução nas tendências modernas e uma a uma foram se mostrando insuficientes, a ponto de retomar ao ponto inicial e descobrir que rejeitava justamente a verdade. Chesterton criticou o mundo moderno não por simples uso da razão, mas por tê-lo visto de dentro, de suas entranhas. Essa incrível jornada o levaria não só de volta à igreja anglicana, mas à conversão católica na maturidade. Para ele, o catolicismo era mais que uma religião, era a expressão de uma verdade chamada Cristo.


u© MARCOS JUNIOR 2013