George Steiner

In Bluebeard’s Castle

Some notes towards the refefinition of culture

Images and symbolic constructs of the past are imprinted, almost in the manner of genetic information, on our sensibility.

Muito se tem falado sobre a cultura moderna ou até mesmo pós-moderna. Alguns a defendem como a expressão do progresso, como uma nova cultura rica em suas transgressões e novas manifestações. Outros, nostálgicos de uma cultura que ficou no tempo, defendem uma volta à tradição, que muitas vezes se confunde com a educação clássica, que vai dos gregos até o início da modernidade, de Eurípedes a Dickens, passando por Cervantes e Shakespeare. Steiner propõe uma visão mais radical nessa discussão, o do mundo da pós-cultura.

Sua base inicial de reflexão é um manifesto de 1948, do poeta T. S. Eliot chamado Notes towards a definition of culture. Em síntese, Eliot defendia o retorno ao clássico, que só seria possível por um retorno à religião cristã, ao abandono do relativismo moral que a Europa mergulhava com toda sua alma.

Pois Steiner argumenta que este retorno não é mais possível à medida que o que chamamos hoje de cultura rompeu definiticamente com toda a tradição que a antecedeu. O elo que ligava o presente ao passado foi rompido e qualquer tentativa de revivê-lo será a partir desta modernidade, caracterizada pelo relativismo e as escatologias ideológicas. A cultura acabou, vivemos o mundo da pós-cultura.

 It is my thesis that certain specific origins of the inhuman, of the crises of our own time that compel a redefinition of culture, are to be found in the long peace of the nineteenth century and at the heart of the complex fabric of civilization.

O mundo de 1789 até 1815, com a deposição de Napoleão, foi talvez o mais acelerado da história; o tempo das revoluções. Grandes homens, surgindo do nada, marchavam contra os poderes constituídos e eram vitoriosos. O próprio imperador françês era o símbolo desta época. Nunca antes alguém tinha saído literalmente do nada para colocar um continente inteiro de pernas para o ar.

Com a derrocada napoleônica veio um período de grande otimismo, que duraria até a eclosão da Grande guerra Mundial de 30 anos (1915-1945). Foi um período de paz relativa, de grandes conquistas tecnológicas, mas de grande imobilismo social. Foi um período que se caracterizou por um grande enfado, ou nas palavras de Steiner, The Great Enmui. Afinal, depois de Napoleão, o que restaria para o homem realizar?

Surge uma espécie de nostalgia do desastre, a necessidade de um fogo purificador que levasse o homem ao heroísmo. A junção do alistamento militar, os meios de transporte e a industrialização abria o caminho para este desastre. Que veio por fim em 1914.

Entender a pós-cultura implica em entender o imenso impacto da Guerra Mundial de 30 anos. A Europa perdeu na I Guerra Mundial a maior parte do que tinha de melhor pois sua elite intelectual e política correu para os Campos de Batalhas em busca de sua afirmação; e pereceu em suas trincheiras. Para Steiner é preciso entender que o destino da Europa foi carregado pelo que sobrou de uma geração que foi estraçalhada. O resultado só poderia ser o período de 1939 a 1945, uma temporada no inferno.

Why tid humanistic traditions and models of conduct prove so fradile a barrier against political bestiality?

O impacto na cultura foi devastador. Todo o humanismo e o resultado do século das luzes não foi suficiente para impedir a bestialidade. Neste sentido, o holocausto não foi mero produto de um homem (Hitler) ou uma nação (Alemanha). Foi a consolidação de uma tendência, uma revolta que ameaça explodir em algum lugar da Europa. O homem moderno não perdoava os judeus pelo crime de inventar a consciência, através de seu Deus único. 

A consciência européia foi montada por um processo de superação. Inicialmente o cristianismo superou o judaísmo através da substituição do Deus mosaico pela trindade, a junção de uma espécie de amor anárquico com a razão. Aparecia uma doutrina do fim dos tempos que se realizaria na história. O socialismo messiânico viria para substituir o cristianismo e trazer a escatologia para o mundo. 

By killing the Jews, Western culture would eradicate those who had "invented" God, who had, however imperfectly, however restively, been the declares of His unbearable Absence.

O problema é que com o desaparecimento do inferno no outro mundo, foi necessário trazê-lo para o nosso pois o homem precisa de um inferno. O campo de concentração foi a forma de tornar o inferno imanente. O holocausto foi o símbolo da derradeira revolta contra Deus, a segunda queda do homem, o abandono de uma ordem racional. Justamente esta eliminação da transcendência marca o rompimento com a cultura ocidental e o fim do próprio conceito de cultura. O mundo agora era o do pós-cultura.

the concentration and death camps of the twentieth century, wherever they exist, under whatever regime, are Hell made immanent.


O mundo do pós cultura se caracteriza pelo relativismo cultural, a adoção de virtudes selvagens e uma espécie de neo-primitivismo, uma busca de um ideal perdido. Há um masoquismo persistente, um sentimento de culpa pelo próprio sucesso do ocidente.

A junção do Enmui com a estética da violência só poderia resultar na desumanizacão do homem, como comprova o fascínio que o terrorismo passou a despertar nos intelectuais. Intelectuais, por sinal, que passaram a viver na mentira retórica, uma descrança nos próprios ideais que defendiam. Uma distância entre a vida privada e suas crenças públicas.

O progresso está ligado à educação e a escola passa a ser o novo templo religioso. Bastaria universalizar o acesso à educação para eliminar os problemas do mundo, esquecendo-se que a alta cultura pode conviver muito bem com o barbarismo. Escutava-se Mozart ao lado de um campo de concentração, ou até mesmo dentro dele, na maior desenvoltura.

O mundo do pós cultura é o mundo do rompimento com o passado. Além do rompimento do educado com o ignorante, da classe alta com a baixa, da autoridade do idoso com a dependência do jovem, da guerra dos sexos. 

Steiner defende que o tema central de uma cultura verdadeira é a relação entre o tempo e a morte individual e não o entendimento moderno de cultura como uma espécie de " modo de vvida". O core de qualquer cultura é seu aspecto religioso. Não há como restaurar as formas de cultura clássica pois a ligacão foi rompida.

What is central to a true culture is a certain view of the relations between time and individual death.

Por fim, Steinter termina seu ensaio com considerações sobre as tendências do futuro. 

A maior parte da cultura ocidental está agora inacessível ao homem moderno. Não há como ler Shakespeare, mesmo em inglês, sem inúmeras notas de rodapés ou mesmo uma tradução para o inglês moderno. 

A cultura de massa exige a adaptacão das obras clássicas, que implicam em sua adulteração. Os resíduos da clássico dorme nos museus, especialmente nos Estados Unidos, que parece destinado a ser o gaurdião do que sobrou da tradição européia. 

Cada vez mais a sociedade romperia com a linguagem dos livros para se caraterizar pela linguagem do som e da imagem. A cultura deixa de ser privada e passa a ser essencialmente pública.

In numerous homes the hi-fi components and the rack for long-playing records occupy the place of the library

O homem perde seu direito à solidão. A musicalização da cultura exige o compartilhamento, quanto mais melhor. 

In Bluebeard's Castle foi escrito em 1971 e muito do que Steiner apenas sugeriu foi concretizado. Quarenta anos depois podemos ver nas prateleiras as adaptações das obras clássicas, sem contar suas desfigurações completas como a série que junta obras clássicas com monstros e zumbis. 

O 11 de setembro evidenciou que o fascínio dos intelectuais com a violência só aumentou. O homem está mais desumanizado do que nunca e a religião na Europa é um eco de um passado cada vez mais distânte. 

Não sei se é possível recuperar o imenso legado da tradição européia, vejo alguns esforços isolados neste sentido. Será suficiente? Será possível retornar e encontrar este elo perdido que se rompeu com nosso passado?

Chesterton argumentava que uma das falácias do homem moderno é que não era possível fazer o relógio voltar. Mentria. O relógio é uma criação humana e como toda criação humana pode ser desfeita. Basta girar seus ponteiros para trás. Outra falácia é que depois que o homem desarrumou sua cama teria de deitar nela. Idiota é o homem que vê sua cama desarrumada e trata de deitar se pode simplesmente arrumá-la do jeito correto. 

Steiner pode ter razão em dizer que a cultura deixou de existir com o rompimento com a transcendência, mas lembrando que o sentido de religião é religar como o que foi perdido, talvez ainda se possa voltar atrás e retomar o caminho abandonado.





u© MARCOS JUNIOR 2013