João Pereira Coutinho

Av, Paulista

O livro é um conjunto de crônicas do português João Pereira Coutinho, publicadas na Folha de São Paulo entre 2005 e 2008. Dividida em duas partes (samba e chorinhos), o português trata da vida cultural, principalmente européia, e do retrato da civilização ocidental nos dias de hoje.

Trata de assuntos diversos como futebol, comportamento, Woody Allen, Rocky, O Código da Vinci, ambientalismo, a execução de Sadam, Jane Austen, jornalismo, mídia em geral, literatura, poesia, Gore Vidal e tantos outros.

Considero João Pereira Coutinho o melhor texto da imprensa escrita brasileira. Relativamente novo, 33 anos, é um leitor fanático e perspicaz observador da comédia humana que se desenrola sob nossos olhos todos os dias. Poucos conseguem, como ele, associar as idéias como a realidade existencial, ligar a imaginação com os acontecimentos concretos. Sua crônica sobre Jane Austen, por exemplo, mostra como a romancista pode seu usada para dar um pouco de luz sobre os relacionamentos amorosos. Orgulho e Preconceito é uma “meditação brilhante sobre a forma como as primeiras impressões, as idéias apressadas que construímos sobre os outros, acabam, muitas vezes, por destruir as relações humanas”.

Problemas sentimentais, por favor, não façam caso. Fatalmente, tenho sempre dois objetos sobre a mesa: uma caixa de lenços de papel e, claro, uma cópia de Orgulho e Preconceito, o livro que Jane Austen publicou em 1813... lê Orgulho e Preconceito e encontrará a luz, meu amor.

Outro bom momento é sua defesa apaixonada de Woody Allen, toda a obra. Confesso que vi pouquíssimos filmes do americano e há muito, muito tempo atrás. Talvez seja hora de assistir uns dois ou três e fazer uma imagem melhor. Outra cortesia de Allen.

Da mesma forma, Coutinho desperta o interesse sobre outros autores, alguns que já tinha lido a respeito e outros que nunca tinha escutado falar. Poucos conseguem despertar o interesse por um autor com tão poucos palavras; sua concisão é absurda.

O trato com a linguagem também é admirável, fruto de décadas lendo o melhor da literatura, como bem atesta a crônica sobre Allen. O humor é marca constante, assim como a ironia; utilizados para evidenciar as contradições e a falta de lastro com a realidade de boa parte do discurso politicamente correto dos dias de hoje, este mal que acaba com a capacidade de pensar do homem contemporâneo.

Atenção, críticos. Eu tenho três palavras para vocês. Não. Sejam. Ridículos. Será preciso repetir? Falo em defesa de Woody, meu amigo Woody Allen, que há trinta anos __ bom, há uns vinte __ vive cá em casa, na melhor estante do meu coração.

Evidencia como ninguém que ninguém é mais intolerante nos dias de hoje do que os tolerantes, que o mundo pode ser asfixiante para quem defende que o homem deve ser livre para fazer suas escolhas e conviver com elas.

Coutinho é leitura obrigatória para quem quer sair do lugar comum da crítica cultural burocratizada e sem imaginação que assola o mundo; quadro bastante agravado no caso brasileiro. É uma brisa de ar em um ambiente carregado de doutrinadores ideológicos transfigurados em jornalistas, autores, intelectuais. É um destes textos que devem ser lido como remédio para manter a saúde mental.



u© MARCOS JUNIOR 2013