John Keegan

The American Civil War

Keegan inicia seu livro  argumentando que enquanto a I Guerra Mundial havia sido um conflito desnecessário, o mesmo não se dava com a Guerra Civil Americana; o que não implica que não pudesse ser evitada. Havia possibilidades para resolver a questão principal, a escravidão, no campo político mas infelizmente haviam idealistas em ambos os lados que estavam prontos a defender seus ideais com armas nas mãos. E foi o que aconteceu.

Não foi pela escravidão propriamente que o sul foi para a guerra; aliás, o sul não foi para a guerra, ele simplesmente se retirou da União. O que estava em jogo para Jefferson Davis e principalmente para o homem do sul era a independência dos estados. Para esses homens, a União estava violando a constituição e submetendo estes estados a uma tirania.

Para Lincoln e o resto do país, a secessão era inconcebível. Tanto que os sulistas foram tratados durante toda guerra não como beligerantes, mas como rebeldes. A eles foram negados todos os direitos da tradição da guerra, deveriam ser simplesmente esmagados, como acabaram sendo. Enquanto McClellan, comandante do exército da união, esteve a frente, ainda procurou se fazer uma guerra com um número mínimo de baixas, pois entendia que estava enfrentando seus compatriotas. Grant e Sherman tinham outra visão, o sul precisava sofrer para abandonar a luta e isso incluiu sua população civil. 

Começava aí a aplicação do conceito da guerra total, que alcançaria seu ápice na II Guerra Mundial. Era preciso tirar o desejo de lutar da população do sul, principalmente dos civis. 

A Guerra não foi propriamente sobre a escravidão, embora em certo momento se tornasse com a emancipação decretada por Lincoln no meio do conflito. A esmagadora maioria dos soldados confederados não tinham escravos, e nem aprovavam propriamente a escravidão. Lutavam por sua independência e pelo jeito sulista de ser.

E foi uma carnificina. Misturou-se exércitos de voluntários, sem experiência nem cultura de guerra, idealismo, predomínio da infantaria (o que impedia combates decisivos que apenas o uso intensivo da cavalaria e artilharia poderiam conferir), trincheiras e uma extraordinária capacidade de ambos os lados de aceitar perdas e continuar lutando. Era uma antecipação da I Guerra Mundial em seus aspectos mais funestos. 

O fato de vir morar em Vicksburg me levou a procurar um livro sobre o assunto. Para felicidade minha, encontrei este livro de Keegan, de quem já tinha lido II World War. O que me faz gostar deste historiador militar é sua capacidade de ver o conflito de forma abrangente, desde a organização da logística de guerra, a condução política, a economia de guerra até a descrição das batalhas.

Fica claro no livro que Vicksburg foi o ponto de desequilíbrio da guerra. A partir da vitória de Grant sobre Pemberton e a conquista da chamada Gibraltar do Mississippi, a guerra civil estava decidida. Ainda levariam dois anos, mas já havia o vitorioso. O sul simplesmente procurou resistir até o fim de suas forças.

O livro também é um retrato dos generais da guerra civil, particularmente Grant e Lee. Ao contrário do que acontecia na Europa, os Estados Unidos tinham poucos generais experimentados na arte da guerra. A referência eram os manuais franceses sobre as guerras napoleônicas, o que muito contribuiu para o prolongamento dos conflitos pois faltou em momentos decisivos líderes capazes de aproveitar as oportunidades de vitórias decisivas em momentos chaves do conflito. 

Infelizmente, para Lee, o sul perdeu seu segundo grande general, Stonewall Jackson, no meio do conflito. Grant, por seu lado, teve Sherman e Meade. No fim a vitória do rico e industrializado norte sobre a confederação, encerrando a rebelião que deixaria tantas marcas na estória do país. Mais de 250 mil homens morreram em combate, 500 mil de enfermidades e o sul do país terminou arrasado pela guerra total de Grant, que terminou como presidente dos Estados Unidos.




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