Laurentino Gomes

1822

1822

A obra trata da independência do Brasil, particularmente ressaltando o papel dos indivíduos que conduziram o processo. Além da liderança de D Pedro I, destacaram-se as figuras de José Bonifácio, Princesa Leopoldina e Thomas Cochrane. Pode-se dizer que a dimensão humana tem destaque neste livro de Laurentino, pois trata-se fundamentalmente de uma história de pessoas.

Nos capítulos iniciais são ressaltados os fatores que impulsionaram o Brasil à independência, destacando-se a intrangigência das Cortes de Portugal, que não deram alternativa aos brasileiros além de lutar pela formação de um novo país. Além disso, o ambiente revolucionário europeu iniciado pela Revolução Francesa, a imensa obra de D João VI no Brasil, principalmente a abertura dos portos ao comércio exterior, o receio de uma revolução de escravos, tudo isso foram fatores indutores que influenciaram os personagens descritos por Laurentino.

O autor, no entanto, foge da tentação de considerar a independência como fruto de processos sociais, esta abstração criada pelos historiadores marxistas, e procura mostrar o papel de relevo das lideranças da época. Não fossem as figuras de D Pedro, Bonifácio, Leopoldina e Cochrane, o desfecho poderia ter sido outro, principalmente a fragmentação do território nacional em pequenas repúblicas, conforme o que aconteceu no resto do continente.

Existe um senso comum de que a Independência foi um simples acordo entre D Pedro e D João, que a população assistiu como espectadora. Não foi bem assim. A Independência do Brasil foi conquistada palmo a palmo, estado por estado. As possibilidades estavam todas contra o Brasil, principalmente porque D João tinha levado todos os recursos com ele em sua volta para Portugal. O Brasil nascia como um país virtualmente falido. Graças a liderança de D Pedro, o heroísmo de brasileiros anônimos e alguns golpes de pura sorte, a balança acabou por pender para o lado brasileiro. Segundo Laurentino, tinha tudo para dar errado e por um certo tempo parecia que realmente iria dar. Contrariando todos os prognósticos, acabou dando certo.

Ao analisar o 1º Reinado, busca resgatar a dimensão humana da controversa figura de nosso primeiro imperador. Homem de qualidades, como a coragem e a liderança, mas com fraquezas bem reais. Um líder político que procurou equilibrar interesses mas acabou sucumbindo pelo desgaste provocado pelo romance com a Marquesa de Santos _ a imperatriz era extremamente popular _ e pela interferência na sucessão portuguesa, o que levantou dúvidas sobre sua lealdade.

Forçado a abdicar, D Pedro retornou a Portugal, onde a história lhe daria um último grande capítulo. Para garantir os direitos de sua filha, Maria da Graça, liderou uma guerra civil com os liberais contra os absolutistas do irmão, D Miguel. Venceu e restaurou a monarquia constitucional em Portugal, seu último triunfo. Morreu logo depois da sagração da filha, vítima de tuberculose, pouco antes de completar 36 anos.

O grande mérito de Laurentino não é apenas de conseguir despertar o interesse pelo passado brasileiro, mas também de resgatar a dimensão humana dos grandes acontecimentos históricos do Brasil, rejeitando a teoria das forças abstratas que conduzem os destinos humanos; no fim das contas, quem tomam as decisões e fazem a histórias são os indivíduos reais, com suas virtudes e defeitos. Com uma prosa fácil, própria de reportagens da imprensa, evita o tecnicismo, este mal que assola grande parte da academia brasileiro e tornam a História inacessível ao grande público, além de procurar ficar longe da ideologia, que tanto mal faz ao estudo do passado.

Não se trata de um livro de história, mas de um livro reportagem, em que Laurentino conta um acontecimento fundamental da História do Brasil a partir de um cuidadoso trabalho, baseado principalmente em historiadores de diversas épocas. Longe de esgotar o assunto, é ume excelente ponto de partido para quem deseja conhecer melhor os fatos históricos que marcaram nossa história.

(setembro, 2010)


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