Lobão

Manifesto do nada na terra do nunca

Manifestar é tornar manifesto, público, notório. É expor um ponto de vista sobre determinado assunto. Quando Lobão chama seu livro de manifesto está propondo exatamente isso, mostrar sua visão pessoal. Leio que um resenhista da revista Época critica seu livro por falta de argumentos; de onde tiram estes resenhistas? A primeira coisa que deveria ter feito é classificar a obra para evitar um erro primário destes! O manifesto é como uma pintura, o autor “pinta” um quadro e se posiciona sobre ele. 

O título já sugere que Lobão escreve seu manifesto não no ponto de vista do roqueiro de certa fama, mas como um nada, ou seja, como um indivíduo que é capaz de refletir sobre a situação atual e expressar sua opinião. O fato dele conseguir ver com clareza situações que são evidentes mas ignoradas pela intelectualidade brasileira mostra o nível de corrupção que nos encontramos. 

Os principais pontos do seu manifesto foram bem explorados nas entrevistas e nas polêmicas das útimas semanas. A Lei Roanet se transformou em uma muleta para artistas já consagrados e de incentivo à cultura só tem o nome. Vejam que na última semana foi evidenciado patrocínio milionários, com o nosso dinheiro, para esposa e filha do Sr Sílvio Santos e para o Sr Zé Celso, um dos ícones do teatro brasileiro. Lobão está errado? Pode se arrancar dinheiro das pessoas em um país com tantos problemas sociais e destiná-lo a artistas que não precisam? Sem contar que a produção artística nunca foi tão grande em quantidade e de tão pouca qualidade! Além de se subordinar a interesses políticos ou alguém espera que a lei Roanet vá destinar algum dinheiro para um filme sobre o mensalão?

Lobão apenas une os pontos para mostrar a contradição do apoio da presidente e seu partido ao regime cubano ao mesmo tempo que tenta perseguir os idosos militares brasileiros através da comissão da verdade, uma aberração no próprio nome. Como pode uma presidente que se lançou no jogo político através de grupos terroristas, e que presta verdadeira adoração a gente como Fidel Castro e Hugo Chávez, criticar o regime militar brasileiro? Como pode fazer discurso público contra a tortura e defender Che Quevara e Fidel? 

O eixo principal do manifesto, no entanto, é cultural. A grande crítica do Lobão é a uma cultura artística que tem suas raízes em outro manifesto, o antropofágica de Oswald de Andrade. Um falso senso de superioridade nos faz ter vergonha de absorver a cultura ocidental, fazendo-a meio que escondido, transformando-a em uma criação nossa. o resultado é fechar as portas para gênios como Shakespeare e Mozart em um relativismo boçal que o subordina a gênios que pouca gente tem saco de escutar mas que são verdadeiras vacas sagradas financiadas por dinheiro público. Quem? Leiam o manifesto para saber!

Com esse discurso de esquerda idiota, fomos vitimados por uma vasta produção de canções dedicadas a traduzir a realidade do povo através do delirante e culpado ponto de vista do intelectual/artista da classe média, no sentido de doar uma verdadeira “consistência” a algo a que o povão não tinha o menor acesso, pelo que não tinha a menor empatia, muito menos interesse: a música de cunho social com letras que deveriam ser… inteligentes. (…) daí a grande frase atribuída a Joãosinho Trinta: quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo.


Concordem ou descordem de Lobão, trata-se de sua visão. Que um artista tenha a capacidade de ter uma opinião diferente de seus pares já é um motivo de reflexão. Como pode pessoas tão díspares ter uma visão de mundo tão homogênia e distanciada da sociedade como artistas, jornalistas e a academia? Atores, cantores, entrevistadores e professores saem da mesmo conjunto que é extraído o restante das profissões. O que acontece para que se tornem tão iguais uns aos outros, coisa que não acontece entre engenheiros, advogados e médicos? 

Pior, são justamente esses seguimentos que tomaram o lugar dos antigos clérigos, que tinham seus defeitos, como formadores de opinião e validadores da conduta moderna. São a verdadeira face da chamada “opinião pública”. Lobão mostra que é possível ser contra esta corrente e ter mais diversidade de opiniões em um debate cultural. Pode ser que existam muitos artistas no armário, que evitam expressar suas verdadeiras opiniões com medo da patrulha, que é gigantesca no Brasil, como pode ser observado na repercussão de seu livro, criticado sem ser lido.

Deveríamos saber conviver com opiniões contrárias, mas vivemos em tempos gramscianos, onde o senso comum foi modificado e só admite discussão e discenso dentro dos próprios limites que estabeleceu. Parabéns ao Lobão por ter a coragem de se expor e lutar contra a meia-entrada, bolsa-artista, sertanejo univesitário e tanta impostura. Vergonha para quem teria obrigação de estar denunciando este estado de coisas.

Quem ousa tecer alguem comentário um pouco mais crítico sobre a realidade que nos rodeia acaba sofrendo violências morais e psicológicas, sempre no intuito de eliminar o interlocutor.



u© MARCOS JUNIOR 2013