Nelson Rodrigues

O Óbvio Ululante

Um país de hipocrisia


De uma certa forma, o nome de Nelson Rodrigues adquiriu para as novas gerações, das quais eu me incluo, um sinônimo de pornografia. Muito pelos filmes baseados em suas peças realizados nas décadas de 70 e 80, onde a apelação sexual era uma norma, e um tanto pela série da década passada, A Vida como Ela É, que deu um certo ar de erotismo chique para a obra do autor. O que poucos sabem, e me incluía nesse grupo, era que Nelson era também um cronista, e dos bons.

O Óbvio Ululante, é uma primeira parte do que Nelson chamou de confissões, e reúne um conjunto de textos publicados principalmente em O Globo, entre 1967 e 1968. E que mundo era esse? Um mundo em que o governo militar no Brasil lutava contra o terrorismo de esquerda, que os Estados Unidos se afundavam na lama do Vietnã, da revolta estudantil na França, do encantamento dos estudantes brasileiros pelo comunismo, de D Helder Câmara como um grande nome nacional e de Sartre como a grande influência cultural no Brasil.

Sem medo da polêmica, e com arguto senso de observação, Nelson Rodrigues faz picadinho de uma série de mitos que habitavam o imaginário popular no Brasil. Se existe um fio condutor nas páginas que escreveu no período, talvez seja a denúncia sistemática da hipocrisia. Sempre com extremo bom humor, inteligência e imenso talento para a prosa.

O retrato que faz, por exemplo, da esquerda festiva que frequentava o Antonio's, um reduto boêmio, é devastador. Sua síntese é um rapaz que se torna socialista e passa a dizer que vai para o Vietnã, mas seu intuito é conquistar uma patricinha de miolo mole da PUC. Os pseudo-intelectuais brasileiros são reduzidos a pó pela descrição do comportamento deplorável diante de um Sartre, visivelmente entediado, que visitava o Brasil. D Helder? Um hipócrita que fugia como o diabo da cruz das questões de fé com marxismo vulgar.

Nelson Rodrigues mostra um panorama que só se aprofundaria desde então, o da mediocridade de nossas classes mais letradas. Há de tudo, os que nunca leram um livro, os que leram demais. Sim, pois como ensina, é preciso ler poucos livros e reler muito. De que adianta ler uma multidão de livros e não reter mais do que uma lâmina de profundidade de cada um deles?

Um dos seu talentos era o dos aforismos. "O povo desconfia do que entende", "No Brasil é preciso pedir ao romancista para fazer romance, ao poeta para fazer versos", "Nada mais triste do que a nudez sem amor", "No Brasil, a glória está mais no insulto do que no elogio", "a arte da leitura é a releitura".

Por fim, Nelson Rodrigues faz uma série de referências elogiosas a um grande brasileiro, esquecido pelos pecados de ser cristão e anticomunista. Trata-se de Gustavo Corção, uma das mais inteligentes e sensíveis almas que já usou as palavras para expressar suas idéias nesse país tão maltratado por nós mesmos.

Lendo as páginas dos pensamentos de Nelson fico com uma certeza: é o óbvio ululante que nosso debate intelectual desapareceu. Talvez Olavo de Carvalho tenha realmente razão, não há alta cultura no Brasil. Com algumas exceções que só fazem confirmar a regra.


Abril, 2011


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