Nigel Lawson

An Appeal to Reason

Lawson, N. An Appeal to Reason - A Cool Look at Global Warming. Editora Overlook, 2008


A tese central de Nigel Lawson, ex-secretário de energia e ex-secretário de economia e finanças do governo de Margareth Thatcher, é que o debate sobre o aquecimento global deixou de lado a razão para se concentrar em uma absurda disputa em torno de crenças. Como ele aponta, não é um especialista em climatologia, mas a esmagadora maioria dos apologistas da teoria antropocentrica para o aquecimento, incluindo cientista, também não é. O que falta, e muito, no atual debate, se é que se pode chamar de debate, é bom senso.


.. neither scientists nor policicians serve either the truth or the people by pretending to know more than they do.



Lawson estrutura seu livro para responder a 6 perguntas:


  1. O mundo está se tornando mais quente?
  2. Se está, por que?
  3. O quanto mais quente chegará no futuro próximo?
  4. Quais as consequências?
  5. O quanto estas consequências importam?
  6. O que devemos fazer a respeito?


Argumenta que a ciência do aquecimento global está longe de estar consolidada e lembra que a certeza científica nunca foi obtida pela quantidade de adeptos de uma determinada teoria. Uma série de problemas afeta o atual consenso sobre o clima, os dados e métodos utilizados para formular a teoria do aquecimento não foi divulgada, a importância da atividade solar é praticamente desconhecida, as dificuldades de se calcular a temperatura média global, já houve um período de aquecimento na Idade Média, o aquecimento mais rápido da superfície terrestre em relação à troposfera contraria a teoria aquecimentista, a década de 20 do século passado foi mais quente que as décadas seguintes e, principalmente, não houve aumento de temperatura nos últimos 10 anos, fato totalmente não previsto ou explicado pela ciência do aquecimento.

Lawson recorre frequentemente aos próprios relatórios do IPCC, que muita gente defende como expressão da verdade, embora muitos poucos tenham lido. O relatório é composto de duas partes, uma primeira onde são reunidos os resultados das pesquisas sobre clima e um resumo informativo, voltado principalmente para a imprensa. Começa o primeiro problema, o resumo costuma exagerar muito os efeitos constantes da primeira parte, com um claro viés político. No entanto, o autor prefere considerar que o resumo está correto e analisar suas implicações.

O relatório do IPCC possui várias hipóteses de aquecimento, a mais severa delas considera um aumento de 4º C até 2100. No entanto, o relatório afirma que não existe uma hipótese mais provável que a outra. O que vemos na mídia, entretanto, é que esta hipótese é dada como certa e as demais nem levadas em consideração; além disso, poucos se deram conta que esta hipótese está relacionada a um formidável avanço econômico da humanidade que colocaria o mundo em 2100 como 9,5 vezes mais rico do que o atual. Um crescimento que se daria principalmente nos países em desenvolvimento, notadamente China, Índia e Brasil. Outro ponto importante é que o IPCC recusa-se sistematicamente a levar em consideração a capacidade de adaptação do homem, tanto hoje quanto no futuro, além do incremento que esta capacidade pode ter por conta do avanço tecnológico. Segundo o IPCC, o avanço tecnológico para melhorar a adaptação do homem ao clima seria nula nos próximos 100 anos, uma idéia no mínimo bastante curiosa.

Pouca ênfase é dado também, aos fatores positivos que podem vir de um aquecimento global, principalmente nas áreas mais frias do globo, onde acredita-se que o efeito seria maior. Segundo Lawson, e o próprio relatório do IPCC, o aquecimento teria benefícios e custos, que na hipótese mais severa condenaria as gerações futuras a serem apenas 8,5 vezes mais ricas do que a atual e não 9,5.

Se o impacto econômico de um mundo aquecido só se confirmaria com um extraordinário enriquecimento da humanidade, resta apenas o risco do apocalipse ecológico, justamente o esforço retórico de Al Gore e cia. Pois Lawson mostra que não há a menor evidência que este apocalipse possa acontecer, ao contrário, os poucos dados que se tem hoje mostra que as geleiras se mantém estáveis, em alguns casos até aumentaram, os ursos polares aumentaram e o nível dos mares não sofreu alterações significativas. Talvez o armageddon possa vir de uma hipótese contrária ao aquecimento, ao surgimento de uma nova era glacial, como já foi alardeado pelos próprios cientistas no início da década de 70.

Lawson analisa também a possibilidade do mundo entrar em um consenso para uma redução significativa da emissão de CO2 nos moldes propostos por Kyoto. O grande problema é que os países em desenvolvimento, principalmente China e Índia deixaram claro que não assumirão este ônus por terem o desenvolvimento econômico fortemente atrelado à energia barata da queima de CO2. Em um mundo fortemente globalizado, aceitar uma matriz energética mais cara e limpa, significa apenas transferência da produção para os países em desenvolvimento, o que já está acontecendo em larga escala.


Na conclusão, após resumir todos os fatores estudados no livro, Lawson coloca alguma luz no irracionalismo que tomou conta da guerra ambiental. Para a esmagadora maioria das pessoas, a bandeira ambiental se tornou uma questão de fé e não de racionalidade. Tal fato se deve à convergência em torno da agenda ambiental dos antigos defensores do comunismo, que ficaram orfãos com a queda do Muro do Berlim mas continuaram com seu ódio ao livre mercado e vêem o controle social como forma de fugir do sistema que odeiam e do crescente secularismo das sociedades, notadamente européias, que conseguiram no ambientalismo um substituto ao instinto natural do ser humano de ligar-se ao transcendente. Neste sentido, o verde é o novo vermelho e o ambientalismo é a nova religião.

Finalmente, diante do argumento que não custa nada se prevenir e que o movimento ambientalista não causa nenhum mal à humanidade, Lawson afirma que três grandes riscos estão associados ao irracionalismo do eco-fundamentalismo:

  • a intolerância dos seus membros (o próprio autor não conseguiu um editor inglês para seu livro, fruto do medo de enfrentar a patrulha)
  • os danos às economias de muitas propostas em jogo
  • um dano profundo às economias em desenvolvimento se um proteccionismo verde for ainda mais expandido contra produtos oriundos da América Latina, África e Ásia.


Lawson vai no cerne do problema e faz o principal, recorre a fontes primárias. No caso, o relatório do IPCC, um item obrigatório para qualquer jornalista que deseje discutir o assunto com um mínimo de vergonha na cara. Infelizmente, a maioria se contenta com o resumo do relatório e quando muito; vários são os que recorrem a resumo do resumo publicado na mídia. Boa parte do jornalismo tem imensa preguiça de pesquisar, prefere ver uma nota publicada em algum jornal e dar sua opinião sobre ela.

Lawson aborda também uma questão espinhosa para os eco-fundamentalistas _ adoreis a expressão! _ os custos. Não apenas os custos financeiros, mais visíveis, mas sobretudo os custos de oportunidade, um conceito desconhecido da grande massa “opiniosa” mundial. Qualquer recurso utilizado em uma direção deixa automaticamente de ser utilizada em outra. A questão em economia sempre foi saber quais devem ser as prioridades. Um dos problemas com o pensamento esquerdista, que abraçou apaixonadamente o ambientalismo, é se recusar a aceitar uma realidade flagrante, base da ciência econômica: os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas. Na mente de um esquerdista padrão, a dinheiro para tudo, basta apenas a tal vontade política.

Alguns dos argumentos de Lawson eu já tinha chegado por conta própria, com um pouco de pesquisa. Só não toco muito no assunto porque eu nunca li o relatório do IPCC e reconheço que não entendo nada de climatologia. O que já é um degrau a mais dos que acham que entendem, como já dizia há alguns milhares de anos Sócrates. É mais um exemplo da sabedoria do “só sei que nada sei”. No entanto, conheço um pouco de lógica e bom senso, e se não posso julgar se o mundo está aquecendo ou não, se o homem tem culpa ou não, posso julgar muitas das consequências, principalmente as econômicas, ciência que tenho estudado por contra própria há dois anos.

O que se propõe para atual geração, em termos de redução de emissões, tem um custo tremendo; principalmente para os países em desenvolvimento. Até que ponto deve-se fazer esta sacrifícios para beneficiar uma geração que será n vezes mais rica do que a atual? Como Lawson bem colocou, os ambientalistas recusam-se sistematicamente a colocar com palavras claras o que realmente sabem e o que pretendem; já escutei argumento que é preciso exagerar para despertar a “consciência da humanidade”. Minha experiência mostra que quando precisa-se recorrer à mentira para conseguir um objetivo é porque há algo de errado na tese. É o que o autor mostra neste livro curto, bastante conciso e necessários para a época que João Pereira Coutinho bem cunhou: o da intolerância dos tolerantes.

... the politicians need to be honest with the people, and tell them the truth. If they believe that we need to cut back drastically on carbon dioxide emissions today, at considerable cost and disruption to our way of life, not because there is any real likelihood of significant harm from global warming, but because there is a remote risk of major disaster at some time in the distant future, they should make the case explicity in those terms, and in no other.


u© MARCOS JUNIOR 2013