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Lições de Corção - Marta Braga


É interessante que talvez o curso que talvez tenha tido maior impacto em minha vida foi um curso livre, sem valor acadêmico, de filosofia do homem. Aconteceu na época em que eu fazia mestrado em engenharia de transportes e de certa forma mudou a forma com que me relacionava com a cultura. De duração de um ano, o curso tinha duas horas semanais; uma iniciativa de um professor de mecânica, apaixonado por filosofia.

A lista de leitura que montei na época, a relação de autores que conheci no curso, são meus companheiros já há 5 anos. Volta e meia volta a minhas anotações e a apostila do curso por indicação de mais leituras. O curso foi um imenso índice para entrada em uma vida de cultura superior, coisa que nenhuma universidade meu deu até hoje. Dá para refletir um pouco sobre o ensino acadêmico, não?

Um dos autores que escutei falar a primeira vez nesse curso foi Gustavo Corção. Chamou-me atenção o fato de ter sido professor do IME e ser completamente desconhecido nessa mesma instituição. Naquele momento, representava para mim um homem de ciências que tardiamente decidira penetrar no vasto mundo da filosofia; justamente o que eu começava a fazer. Neste sentido, tinha nele um protótipo.

Li vários de seus livros e considero-o um dos melhores, se não o melhor, prosador do nosso país. Que figura! Que cultura! Que clarea! Gustavo Corção foi sem dúvida um dos nossos maiores pensadores e seu único romance, Lições de Abismo, digno de figurar na lista dos maiores da lingua portuguesa.

Marta braga nos apresenta essa pequena biografia de Gustavo Corção, fruto de sua tese de doutorado (que algumas vezes serve para alguma coisa!), apresentando o escritor para as novas gerações. Retratando-o desde a infância, suas tentações materialistas da juventude, o mergulho na técnica, a conversão ao catolicismo e o novo mergulho, agora na filosofia e teologia, sua atuação pública, a partir do Centro Don Vital, suas obras e sua partida deste mundo, no ano do início do papado de João Paulo II.

Acima de tudo, Corção era um homem profundamente interessado na natureza humana e sua relação com o mundo. Sua mente era de uma clareza chestertoniana; seu raciocínio, rápido e criativo. Para ele, a questão da verdade era fundamental:

O desprezo pela verdade, eis o nome do maior veneno do mundo.

Infelizmente, Corção foi escondido, esse é o termo, pela nova elite cultural que surgiu com o fim do regime militar. Tinha dois pecados, era um católico sincero e um conservador, um verdadeiro homem de direita. Na verdade, não precisou nem do fim do regime, o que mostra que a esquerda tinha vencido a guerra cultural ainda no tempo dos generais, que nunca se interessaram por essa parte. Esse livro de Marta Braga talvez seja a única coisa sobre Corcão que tenha sido publicado nas últimas décadas. As últimas edições de seus livros são de mais de 20, talvez 30 anos!

Por mais que se discorde das idéias de um autor, não se pode ignorá-lo desta forma, ainda mais quando foi um dos maiores ensaistas de seu tempo. Um homem que conseguiu ser elogiado por gente como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade, os próprios Papas, não pode ser esquecido dessa maneira de jeito nenhum. Urge uma reedição de sua obras e uma apresentação para nossa sociedade. Ele faz parte de nossa cultura, queiram ou não.

Parabéns a Marta Braga pelo feliz livro e a contribuição para um possível resgate de um grande mestre. Salve Corção!

Para o individualista, o casamento é o epílogo de uma história de amor; para nós, é o prólogo de uma história de amor. No primeiro caso, o amor é exigente e se acerca do guichê nucpcial para receber os juros; no segundo caso, o amor é paciente e fecundo, e não procura o seu próprio interesse. (Gustavo Corção, Claro Escuro)


Quem disse que não tem discussão?

Alberto Carlos Almeida, 2012 

Baseado no aforisma que não se discute política, religião e futebol, Alberto Carlos Almeida se propõe a discutir exatamente isso, tendo como base os vários dados empíricos disponíveis sobre os mais variados assuntos.

Na parte política, toma como tese básica que o principal fator para eleição de um político é a avaliação do governo. A partir de uma série de dados existentes, mostra que o que aconteceu com Dilma estava longe de ser uma novidade na política brasileira. Um governo bem avaliado, e o de Lula inegavelmente era, consegue sim eleger qualquer poste.

Coloca o PT como um legítimo herdeiro da social democracia européia, cujos partidos começaram radicais e foram se alinhando na centro-esquerda quando começaram a ganhar votos e eleições. Segundo ele, o PT já ocupou esse espaço na política brasileira e de lá não mais sairá.

O maior partido de oposição, o PSDB, só tem uma saída. Assumir a posição de centro-direita, tornando-se o partido conservador que a esmagadora maioria dos seus eleitores imagina que seja. Para isso, deveria ter como maior bandeira a redução de impostos para aumento do poder aquisitivo de todos os brasileiros, justamente uma idéia que desagrada seu principal nome, o ex-candidato José Serra.

Se no campo político o livro é muito interessante de ler, no religioso é próximo de um desastre. Alberto Almeida se prende a suas próprias idéias estreitas do que seja religião e principalmente o catolicismo. O que se lê é uma coleção de clichês e desconhecimento, principalmente sobre a Idade Média. Chesterton estava certo, o pior cristão, aquele que tem a imagem mais errada da fé, é justamente aquele que se criou na margem do catolicismo. Almeida se define como católico não praticante, justamente o que Chesterton estava tentando dizer.

Por fim, o futebol não compromete, mas mostra que foi só um apêndice para justificar o título, e talvez a inclusão de sua crítica ao catolicismo.

O livro vale pela sua parte política e econômica, por evidenciar determinados aspectos das eleições e da política no Brasil. Poderia ter terminado por aí e seria um excelente livro. Como se estendeu mais do que devia, fica apenas como um bom livro.


Norbert Elias - Sociologia de um gênio

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Mozart é considerado um dos maiores, se não o maior, gênio da música. O que poucos sabem, é que nasceu antes da hora. Ele tentou levar uma vida de independência musical em uma sociedade que não estava pronto para alguém como ele. O tema central dessa pequena biografia escrita pelo sociólogo Norbert Elias é justamente essa disputa permanente que o músico levou com as cortes austríacas de sua época.  Ainda não era a época da independência de um músico, e por não compreender isso, Mozart desistiu de viver e nunca saberemos o que seria em sua maturidade. 

Eu sou eu e minhas circunstâncias, já dizia Ortega y Gasset. A vida de Mozart mostra a tragédia do confronto do eu com as circunstâncias. Um espírito irriquieto, que desejava mais do que mostrar sua genialidade, desejava a independência total para criar. Elias mostra que um músico, mesmo alguém como Mozart, era um empregado da corte como outro qualquer. Tanto pior, como aconteceu algumas vezes com Mozart, se o empregador julgasse conhecer  música suficiente para impor o que gostaria de ouvir. A posição de inferior era um golpe profundo demais no orgulho para que Mozart suportasse. Ele achava que seu talento o colocava no mesmo nível que os nobres das sociedades européias. Foi uma luta inglória, que não tinha como vencer. No final, abandonado por todos, ferido em seu amor próprio, ele simplesmente não quis mais viver e deixou-se levar pela doença. Apenas com Bethoven, na geração seguinte, um músico poderia aspirar uma independência parecida com o que existe hoje. 

Através de cartas com os parentes, especialmente o pai, figura central na vida de Mozart, e acontecimentos pitorescos de sua vida, Norbert Elias vai reconstruindo o drama central dessa vida tão extraordinária. Publicado em seu último ano de vida, mas organizada por um amigo, o texto era para fazer parte de uma obra mais ampla, que Elias tinha desistido. O resultado é uma rara biografia concisa, com o extraordinário mérito de centrar no essencial, no conflito que deu lugar a um gênio. Mozart quis ser um músico autônomo em uma sociedade onde não haviam músicos autônomos, não na alta corte, o que corresponde a um problema adicional interessante. Mozart não queria ser um músico popular; queria ser adorado pela mesma sociedade que pessoalmente desprezava, mas que reconhecia ter a cultura suficiente para reconhecer seu talento. E isso custou sua vida.


u© MARCOS JUNIOR 2013