Paulo Francis

Trinta Anos Esta Noite


Pouca gente era adulta, trinta anos atrás. Se convencionou que adulto é ter 21 anos, maioridade. Ou seja, adulto na época hoje teria média de cinqüenta anos. Claro que há, circulando forte e sacudida, gente dessa idade para cima. Mas é minoria no Brasil (...) Daí algumas idéias nebulosas sobre o regime militar e o governo Jango; em suma, desconhecimento foi o destino de duas gerações.

A lembrança que tenho de Paulo Francis era daquela figura folclórica do Jornal Nacional comentando os assuntos americanos, tão bem parodiada posteriormente por Chico Anísio. Através de referências de gente como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo fiquei curioso sobre seu pensamento; assim cheguei a esta obra.

Francis revive não só os acontecimentos de 31 de março de 1964, mas principalmente o que viveu naqueles dias de fim do governo Jango e início do regime militar. Não se restringe a estes fatos, vai além. Tem horas que volta no tempo, horas que avança; assim forma um mosaico de seu próprio pensamento sobre a Revolução de 64 e outros assuntos, ligados a ele ou não.

Paulo é polêmico e mostra suas influências, seus gostos, suas idéias. Muitas vezes vai contra o senso comum. Ao invés de centrar no papel dos militares e os líderes da esquerda, colocou no foco as lideranças civis que apoiaram politicamente a derrubada de Jango e depois foram destruídas no processo, principalmente a figura de Carlos Lacerda.

É uma obra que mostra, mais do que história e estórias, a inteligência de um homem que se entregou às reflexões mais profundas e procurou entender o pensamento de sua época. A desenvoltura com que fala de Freud, Mozart, Sartre, Proust, Lacan, Heisemberg, mostra que não passou a vida como passageiro mas como um protagonista.

Aponta o que seria o grande problema do Brasil após o regime militar: a perda da liderança civil, seja pela inútil luta terrorista, ou pela passagem para a esfera privada de atuação. Sem ela, o Brasil foi entregue a homens de segunda grandeza, o que é "uma das causas da escumalha política hoje dominante."

Isto em 1994. Imagine se estivesse vivo nos dias atuais



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