Ubiratan Jorge Iório

Ação, Tempo e Conhecimento

Uma confusão muito comum é pensar que todos os economistas liberais falam a mesma coisa, possuem os mesmos princípios. Desta forma haveriam os marxistas de um lado, os liberais do outro e possivelmente Keynes no meio. Os chamados economistas austríacos seriam apenas mais do mesmo no campo libertário. Nada mais falso como demonstra de forma bastante didática Ubiratan Jorge Iorio em Ação, Tempo e Conhecimento.

O título já adianta o que seria a tríade básica desta escola, conforme denominado por Iorio:

  • Acão: é a base de toda a economia, a ação dos indivíduos e empresas. O homem age para sair de uma situação menos satisfatória para uma mais satisfatória, de acordo com sua escala pessoal de valores. O conjunto destes atos constituem o que entendemos como economia.
  • Tempo: o tempo é dinâmico. Significa que os atores aprendem com o tempo e passam a agir de forma diferente, atualizando seus conhecimentos. 
  • Conhecimento: é sempre limitado. Pior, é difuso pela sociedade e não articulável, o que torna impossível qualquer planejamento centralizado. Apenas a função empresarial pode utilizar os diversos conhecimentos para produzir um novo, gerando valor.

Desta forma, a escola austríaca rejeita o conceito de macro-economia e se afasta do mainstream econômico, inclusive liberal. O mundo real é o da chamada micro-economia. Embora tenha muitas semelhanças com o liberalismo clássico, se afasta em algumas questões cruciais como a rejeição da noção de equilíbrio de mercado.

Iorio escreveu um livro com um objetivo muito claro, ensinar didaticamente o pensamento da escola austríaca, enfatizando o pensamento de gente como Mises, Hayek e Menger. Partindo da tríade, ele vai desenvolvendo e explicando os diversos conceitos desta escola que começa a ganhar mais visibilidade, principalmente pela sua descrição dos ciclos econômicos, que para desespero dos políticos e keynesianos vai se mostrando exato a cada crise econômica.

O pensamento austríaco não abstrai da sociedade real para pensar economia, ao contrário, a integra em todas as áreas do conhecimento, colocando o indivíduo como centro do processo econômico. 

A economia é a ação humana ao longo do tempo, nos mercados, sob condições de incerteza genuína.

Em se tratando de filosofia política, distingue a sociedade em ordens espontâneas (nomos) e ordens dirigidas (thesis). A primeira se refere às construções de ordens que parecem espontâneas à medida que não existe uma coordenação centralizada ou uma direção para sua constituição. Um exemplo é a linguagem, uma criação difusa na sociedade mas que se estabiliza com o passar do tempo, como se não fosse criada por ninguém. A segunda se refere a construções de um grupo de indivíduos para um fim específico, como a ONU ou o FMI. Em termos de lei, o primeiro se refere à lei natural, o segundo à lei positiva.

No que se refere ao mercado, este pode ser livre (cosmos) ou planificado (taxis). Estes elementos podem ser combinados em dois polos distintos. O primeiro é aquele em que as ordens espontâneas através da lei natural, que se traduz muitas vezes no direito consensual, se reproduz em um mercado livre. Trata-se do nomos-cosmos, a sociedade livre. O segundo polo é quando ordens dirigidas dominam a sociedade através das leis positivas e mantém a economia sobre direção centralizada. É a construção thesis-taxis, o regime totalitário.

Agora vem a parte importante, especialmente Hayek argumentava que no longo prazo as construções intermediárias, nomos-taxis ou thesis-cosmos, são insustentáveis e terminam no segundo polo, no totalitarismo. Desta forma, o fim da social-democracia é o totalitarismo pois haverá sempre uma pressão crescente por mais leis positivas para garantir cada vez mais direitos (thesis) e maior direção (taxis) na economia para garantir uma pretensa estabilidade.

A teoria dos ciclos econômicos invertem a equação de Keynes de que uma crise econômica é causada por poupança demais e investimento de menos. Para os austríacos a crise era um resultado de investimentos sem lastro em poupança real. Para se investir é necessário que a sociedade adie o consumo para liberar recursos para os estágios mais afastados do produto final, como a infra-estrutura. Quando o governo emite crédito artificial, aumentando a oferta da moeda com a consequente queda das taxas de juros, a coordenação entre passado e futuro se quebra, originando um ciclo econômico em 5 etapas:

  1. Boom da indústria de bens de capital, pois o juros baixo geram justamente o falso indicador que o consumo aumentará no futuro tornando atrativos os investimentos de projetos de maturação mais longa. Desta forma os recursos passam a ser direcionados para longe do consumo. Aparece a inflação pois salários e recursos sobem de valor pela disputa entre consumo e investimento.
  2. efeito-renda: O aumento de salário gera a expansão do consumo, gerando uma expectativa em toda a economia.
  3. Aperto do crédito: Com a disputa entre investimento e consumo, e o surgimento da inflação, que no conceito austríaco trata-se da perda do valor relativo da moeda, os juros necessariamente começam a subir, tornando os investimentos de longo prazo insustentáveis. 
  4. Recessão: os projetos que foram iniciados mas que na verdade nunca foram sustentáveis porque o consumo futuro não existirá são abandonados, gerando desemprego nos setores mais afastados do consumo. Em outras palavras, os investimentos errados são liquidados, gerando perda de valor para a economia.
  5. Estabilização: Com a inflação os salários perdem valor real e as taxas de desemprego começam a cair, realocando os recursos para o consumo final à medida que consumidores e empresas vão se ajustando à realidade.

O livro dá uma aula de economia, mostrando que a escola austríaca não é o mesmo que o liberalismo clássico e que se articula com uma visão de sociedade em que a concepção ética é uma necessidade para o seu funcionamento harmônico. Além do exposto nesta resenha, apresenta também conceitos como a teoria da moeda, teoria do capital, o efeito Ricardo, os triângulos de Hayek e tantos outros que fazem de sua construção um edifício sólido e difícil de ser derrubado.

O triste para os brasileiros é que de acordo com os austríacos, estamos ainda na terceira fase do ciclo econômico, ou seja, o pior ainda virá e não há como escapar. Ainda mais que depois da farra dos estímulos keynesianos nos Estados Unidos e na Europa, um novo ciclo econômico também se formou no mundo desenvolvido, somando-se ao que já se encontrava em fase final.

O futuro é triste para todos nós. Apertem os cintos. Haverá choro e ranger de dentes!



u© MARCOS JUNIOR 2013