Viktor Frankl

Man’s Search For Meaning

Vivemos em um tempo de abundância material. Bens que em outras épocas seriam luxo, agora pertencem às massas; a quantidade de calorias consumidas por pessoa está levando parte do mundo a ter o sobrepeso como norma; no Brasil existem mais casas com televisão do que com geladeira. Ao mesmo tempo, as pessoas parecem mais infelizes do que em época anteriores e essa infelicidade se revela na absurda quantidade de pessoas com depressão. Quem pode, procura um tratamento com um psicoterapeuta e a tarja preta passa a ser uma companhia constante, pelo menos até que o organismo não se acostume com o medicamento. Outro dia, uma pessoa próxima, já na propalada terceira idade, comentou que não gostava de fazer nada e por isso sentia-se deprimida. Está indo no psicólogo. Não sei de está ajudando-a, mas certamente está ferrando com o resto da família, agora vistos como origem do problema. Fica a pergunta, será a psicologia tradicional a melhor forma de ajudar pessoas com esse tipo de depressão? 

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Em A Man Search for a Meaning, Vicktor Frankl sugere que não. A psicoterapia tradicional tem como sua base o equilíbrio entre desejos e instintos, a busca por encontrar os esqueletos escondidos no subconsciente que impedem a pessoa de se equilibrar emocionalmente. Frankl argumenta que essa busca por equilíbrio não é a nossa grande força motora. Para ele, a essência de nossa humanidade estaria na busca por um sentido. É da condição humana buscar sentido para seu trabalho, suas relações e até para seu sofrimento. Sentidos que são particulares e únicos, que podem mudar ao longo do tempo. A dificuldade de identificar esse sentido, até mesmo de lidar com essa busca inata, é fonte de perturbação para o homem, sendo a depressão sua face mais visível.

“Man’s search for meaning is the primary motivation in his life and not a “secundary rationalization” of instinctual drives. This meaning is unique and specific in that it must and can be fulfilled by him alone; only then does it achieve a significance which will satisfy his own will to meaning.”

Para mostrar a força de sua descoberta, Frankl narra na primeira metade do livro uma experiência fundamental de busca de sentido no sofrimento. Diante da possível alegação de que não há como encontrar sentido em um sofrimento extremo, o psicanalista austríaco faz um impressionante relato de sua própria experiência nos campos de concentração que passou, trazendo a vida todo horror do que viu e mostrando os diversos exemplos de prisioneiros que encontraram na busca de um sentido a força para resistir e sobreviver em uma situação de que apenas um em vinte-oito conseguiam. 

Frankl teve destruído na entrada do Aushwitz os manuscritos do trabalho  que preparava, sobre a logoterapia. Passadas as fases de estranhamento e da apatia, encontrou um sentido na necessidade de comprovar suas teses e publicar seu trabalho quando tudo acabasse, além de ajudar outros prisioneiros a encontrar seus sentidos particulares. Sobreviveu e publicou esse curto e impactante livro em 1945, poucos meses após ser posto em liberdade como um dos únicos sobreviventes do pequeno campo que foi seu destino final na guerra. O livro foi escrito em 6 dias, provavelmente porque já o tinha todo na cabeça. Nele estava o exemplo do que o homem era capaz na situação de intenso sofrimento e quase sem esperança. 

A segunda parte do livro vai tratar da logoterapia. Do grego, logos pode significar razão. Rompendo com a psicoterapia tradiconal, Frankl defendia que para tratar dessa busca do homem por sentido, as técnica tradicionais eram  insuficientes e agravavam o problema. Sua psicoterapia baseava-se na conversa com o paciente, mas com o analista fazendo pergunta e mostrando caminhos para que o paciente encontrasse o sentido para seu sofrimento. O século XX, como previsto por Nietzsche, foi o século do niilismo, que postulava principalmente que nada fazia sentido. O resultado foi o vazio existencial de gerações, que terminavam de uma forma ou outra manifestando-se com a depressão. Através da logoterapia, a pessoa compreende não só que existe sentido mas que ela deve buscar o seu. Frankl reforça que esse sentido é particular, que não pode ser dado por um analista ou qualquer outra pessoa. O que pode ser feito é mostrar caminhos e critérios para identificar esse sentido.

"The existential vacuum is a widespread phenomenon of the twentieth century."

Esse vazio existencial tem se mostrado nas artes e em vários campos do conhecimento como na sociologia. Expressões como mal-estar civilizacional, mundo líquido, se tornaram constantes na cultura ocidental. Embora um sucesso de vendas que ajudou milhões de pessoas, A Man Search for a Meaning ainda permanece desconhecido para a grande maioria, que continua sofrendo com suas pírulas e conversas intermináveis com profissionais que não conseguem ver além do paradigma que foram treinados. Não há como evitar o sofrimento, ele é parte inevitável da nossa vida. Se não soubermos buscar nesse sofrimento um sentido, o caminho estará aberto não só para a depressão, mas para seu resultado imediato, o desespero. 


u© MARCOS JUNIOR 2013