William Deresiewicz 

A Jane Austen education, how six novels taught me about love, friendship, and the things that really matters

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As lições da Srta Austen


Fazem já 5 anos que tenho lido os clássicos da literatura universal, ao mesmo tempo que tenho estudado filosofia. Julgo-me um leitor acima da média, capaz de ir além da leitura superficial e perceber as lições que essas obras nos trazem. De vez em quando levo um tombo e vejo que deixei passar coisas importantes, por vezes a essência do livro, como entendi ao ler o ensaio de Chesterton sobre Macbeth. Outras vezes fico orgulhoso (ai, ai), como na leitura que fiz de O Enforcado de Simenon. Na verdade, julgo-me tão esperto que montei um clube do livro e passei a dividir minhas interpretações com meus amigos.

Então deparo-me com esse pequeno livro de William Deresiewicz e levo um tombo maior que Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito!

Deresiewicz era um estudante de literatura quando leu Jane Austen pela primeira vez, contra sua vontade, como tarefa de um curso de literatura romântica do século XIX. Como explica, seu negócio era realismo, coisas que realmente acontecem e não aquele marasmo que encontrou nas páginas de Emma. Entretanto, a medida que foi lendo, percebeu que o que Austen descrevia era assustadoramente real e sua vida nunca mais foi a mesma.  Jane Ausen para ele se tornou uma jornada de auto-conhecimento, concluída junto com seu mestrado, 6 livros depois.

A Jane Austen education, how six novels taught me about love, friendship, and the things that really matters trata dessa jornada e o autor entrega o que prometeu no título, ou seja, como 6 obras literárias transformaram sua vida ao ensiná-lo tudo sobre amor, amizade e as coisas que realmente importam.

O livro divide-se em 6 capítulos, cada um dedicado a um dos livros de Austen e a lição central de cada estória. Ao mesmo tempo, Deresiewicz retrata sua própria vida, mostrando como seus dramas e soluções estavam expostos nas obras da autora; mais ainda, como a própria vida de Austen refletiam suas idéias. O resultado é assombroso.

Em resumo, as seis lições são:

1. Cada dia conta (Emma): a importância dos pequenos acontecimentos do dia-a-dia e de cada pessoa que encontramos. A conversa mais pitoresca, trivial e sem interesse aparente são expressões da vidas imensamente ricas que têm muito o que nos ensinar. Não existem pessoas desinteressantes, apenas nossa falta de interesse.

2. Crescimento (Orgulho e Preconceito): para crescermos e amadurecermos na verdade, precisamos nos livrar do orgulho, além de achar que nossos sentimentos são fontes seguras para a razão. Temos sim que analisar o que sentimos e buscar nesse entendimento a razão, o que é bem diferente de nos guiarmos cegamente por eles.

3. Aprendendo a aprender (Northanger Abbey). Esqueçam Piaget, Dewey, Freire e et caverna. Fui aluno a vida toda e fui professor em vários períodos. O que Deresiewicz aponta em Northanger Abbey faz muito mais sentido e relaciona-se mais com minha experiência real e efetiva do que toda a teoria pedagógica moderna. E não é nada novo. Faltou o autor fazer a ligação com outra lição dada há quase 3000 anos por Platão

4. Ser bom (Mansfield Park): querem ser bons? É preciso ser útil, se colocar à disposição de outro, mesmo que se sacrifique no processo. Tudo que a moderna auto-ajuda condena. Colocar o interesse do outro acima de si próprio, não se iludir com falsos amigos e parasitas sociais que são encantadores mas que possuem uma necessidade patológica de serem admirados.

5. Verdadeiros amigos (Persuasão): o senso da verdadeira comunidade, aquela que reúne seus familiares que temos como amigos, e nossos amigos que temos como família, essa é a verdadeira base de uma sociedade.

6. Amor (Razão e Sensibilidade): um tapa no ideal romântico de amor. Para Austen, o amor se constrói, como qualquer de nossos sentimentos. Ao nos relacionarmos, nos abrirmos para o outro, nos ligarmos por laços de simpatia mútua e opiniões comuns, estabelecemos a relação amorosa e quando menos se percebe, já está se amando. Não há aquele estalo do romantismo ou o amor à primeira vista, o momento em que se apaixonou; o que existem é a percepção de que se está amando. Outra idéia que Austen critica é o de que não se pode amar novamente, de que o tal amor verdadeiro só acontece uma vez na vida.

Deresiewicz escreveu um livro que mistura crítica literária, sua própria jornada de auto-conhecimento e uma leve biografia da autora. O resultado é uma prosa clara, interessante e que nos faz realmente pensar. A maioria dos pontos que coloca me tinham passado despercebidos, mas efetivamente estão lá, escancarados para quem quiser ver. Faltou-me talvez essa sensibilidade, essa abertura para a verdadeira experiência de ler Jane Austen. Como já li os 6 livros, talvez seja hora de recomeçar.

ps: já estou no final do Emma. Vou ler na sequência que Deresiewicz colocou.


Março, 2012


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